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Quinta-Feira, 10 de Dezembro de 2015, 16h:58

Leandro Karnal: A essencialidade da democracia para vencer a corrupção

Leia a transcrição de palestra proferida pelo historiador no auditório da Procuradoria-Geral de Justiça de Mato Grosso.

Leandro Karnal 

Um dos principais historiadores da atualidade no Brasil‚ Leandro Karnal‚ esteve em Cuiabá‚ falando para uma plateia de promotores e procuradores de Justiça‚ na abertura do XVI Encontro Estadual do Ministério Público de Mato Grosso. Karnal‚ que é professor doutor da Unicamp‚ em uma hora e quinze minutos‚ analisou a “Ética e corrupção no mundo contemporâneo”. Com bastante ênfase‚ Karnal abordou a essencialidade da democracia como único caminho para se combater a corrupção. Mais: Este caminho passa pelo controle que temos de fazer do fascista que habita em cada um de nós.

Na palestra‚ muitas vezes com humor‚ Leandro Karnal colocou o dedo na nossa ferida‚ realçando que somos ainda uma sociedade racista‚ elitista e preconceituosa. Lembrou os 388 anos de escravidão‚ contaminando toda a noção de trabalho que ainda hoje temos‚ principalmente em nossas relações domésticas. Mas não só: Com embasamento histórico‚ demonstrou a relação viciada entre público e privado e destacou a forma como interpretamos as normas sempre a nosso favor. Mas a conclusão é otimista‚ após olhar o cenário do momento: Falta muito‚ mas não falta mais tudo.

 O evento aconteceu na noite de 03 de dezembro e foi promovido com o apoio da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FESMP) e da Associação Mato-grossense do Ministério Público (AMMP). A seguir‚ o conteúdo da palestra de Leandro Karnal‚ praticamente em sua íntegra‚ com exceção de seus dois minutos iniciais‚ quando Karnal começou a explicar a transformação que vivemos de um mundo sólido para um mundo líquido. O exemplo mais claro: o vício do celular. E é deste ponto‚ a utilização massiva das mídias sociais‚ que Leandro Karnal parte para alcançar o tema “Ética e corrupção no mundo contemporâneo”. À palestra:

Deixamos de estar em um mundo sólido e vivemos em um mundo líquido neste momento. O professor Zygmunt Bauman nos lembra [na obra “A liquidez do homem pós-moderno] que o maior símbolo dessa liquidez é o que está acontecendo neste momento‚ inclusive nesta plateia. Várias pessoas acessando o celular. Várias pessoas postando fotos de “eu estou na palestra kkkkk”. Várias pessoas fazendo “#karnalpalestra”. Várias pessoas tirando fotos. Várias pessoas divididas entre o corpo que aqui se encontra e a mente que ora lá fora voa. 

Não mais a junção do aqui e agora. Diz o grande Luc Ferry‚ na “Vida que vale a pena ser vivida”‚ que a gente só daria a vida hoje no ocidente por uma causa: a nossa família. Eu acrescentaria‚ ao meu ex-professor Luc Ferry‚ uma outra causa: o ser humano. Já que nós dirigimos digitando‚ nós dizemos: eu prefiro morrer ou ficar paraplégico a não responder a um whatsapp.

É isso que significa hoje a importância das redes‚ da comunicação‚ do celular‚ e assim por diante. Somos cronicamente dependentes‚ e eu quero começar situando‚ para chegar ao ponto que mais me interessa e aos senhores‚ o momento em que nós vivemos.

Em 1848‚ Marx escrevia uma de suas primeiras obras‚ o Manifesto Comunista‚ e começávamos a viver uma era em que “tudo que é sólido desmancha no ar”‚ título de um livro do professor Marshall Berman‚ de notável erudição. Este é o momento no qual os valores estão desmoronando‚ os valores estão se dissolvendo. Nós vivemos o mundo cada vez mais rápido‚ cada vez mais dinâmico.

O símbolo maior disso é‚ retornando do México‚ após doutorado e falando com a minha avó‚ uma senhora típica do mundo sólido‚ uma senhora que não tinha dúvidas‚ uma imigrante do Rio Grande do Sul‚ que me recomendou muito fazer concurso para a Petrobras... Eu não sei onde eu estaria hoje se eu estivesse feito: Talvez em Curitiba‚ aproveitando a bela cidade... Mas acabei não seguindo o conselho da minha avó. E a minha avó ouviu da minha parte que‚ no México‚ se comia abacate com sal e pimenta e lascou a ideia de que isso dava diarreia. E eu comentei: Vó‚ o Brasil é o único país do planeta Terra que põe açúcar no abacate‚ todas as outras nações colocam sal. E minha avó então constatou: o resto do mundo não sabe que dá diarreia.

Não importa o que eu dissesse‚ minha avó tinha a certeza do que era uma boa educação e o que era uma mulher honesta. Ela ficaria chocada em saber que este termo desapareceu do código. Não que não haja: este auditório está repleto delas. Mas‚ juridicamente‚ vocês não existem mais. Apenas como prática moral. 

Este é um mundo rápido‚ o mundo em que tudo que é sólido desmancha no ar.

Este é o mundo que começou a se acelerar a partir da invenção da imprensa‚ na segunda metade do século XV‚ na Alemanha. Quando Gutemberg começou a imprimir livros‚ ele cumpriu a profecia que Victor Hugo havia colocado na boca de um religioso‚ na obra “Notre Dame de Paris”. Ao apontar para a prensa e para a catedral de Notre Dame‚ ele disse: isso aqui vai matar aquilo lá. Ou seja‚ a imprensa acabou com o monopólio do poder da Igreja‚ difundiu o conhecimento‚ capilarizou‚ atualizou e representou‚ no século XV‚ o início de um processo da modernidade‚ que a internet completou.

Tão rápida esta transformação‚ tão dinâmica‚ tão intensa‚ que - quando eu mostrar as imagens seguintes - nós poderemos dividir esta plateia quanto à antiguidade do RG. Por exemplo‚ a capacidade de se escrever com caneta tinteiro está se perdendo. A obsolescência aumenta rapidamente. A obsolescência técnica e a obsolescência de conhecimento.

Quem tem‚ nesta plateia‚ diploma de datilografia‚ como eu? Não se denunciem... Quem é possuidor desse documento raro‚ único e absolutamente inútil‚ que é o diploma de datilografia‚ tem na cabeça um mantra que é “asdfg”.

Essas pessoas que‚ assim como eu‚ que tem 52 anos‚ que tem essa formação‚ são possuidoras de uma formação inútil‚ haja vista que um jovem de 16 anos digita bem mais rápido do que nós‚ sem nunca ter feito curso de datilografia. 

Eu fiz provas‚ como professor‚ com este instrumento [mostra a imagem de um mimeógrafo]. Isso explica tantos colegas alcoólatras‚ que mexiam com álcool de manhã‚ cedo‚ e imprimiam ou rodavam a prova no mimeógrafo.

Eu sei procurar informações nisso [mostra uma foto de enciclopédia Barsa]‚ que é um livro e uma coleção deles‚ chamada enciclopédia. A enciclopédia é inviável no mundo líquido porque a enciclopédia representa o saber fixo e imutável. O mundo líquido precisa do dinamismo da wikipedia. 

Acontece que essas habilidades vêm acompanhadas de características de comunicação‚ como a atomização da comunicação‚ o fato de que as pessoas falam constantemente ao celular com outras pessoas. O fato de que não há mais foco nas conversas. O fato de que as pessoas se reúnem falando ao celular. Essa linguagem ficou mais sintética‚ abreviada‚ um pouco semita porque estamos acabando com as vogais... Acrescentamos figurinhas‚ e aqui também é um indicativo de idade‚ porque as pessoas mais velhas não têm a menor noção da relação das figurinhas com a mensagem. Apenas acrescentam várias para ilustrar. Colocam árvore de natal‚ coelhinho da Páscoa‚ tudo junto‚ e os mais jovens escolhem as figuras muito adequadas.

Há uma dependência tecnológica tão brutal que nos Estados Unidos‚ onde estive há pouco‚ há hoje finais de semana de desintoxicação de internet. Há uma doença no Japão que é um tipo de fobia de sair às ruas porque os jovens não conseguem mais sair do quarto‚ apenas na Internet. 

O individualismo é a marca desse mundo líquido. Nos preocupamos quase que exclusivamente conosco e eu sugiro‚ como teste para comprovar a ideia de Bauman‚ que hoje‚ ao chegarem em casa‚ os senhores digam à esposa‚ ao marido‚ aos filhos ou a quem estiver lá‚ a frase clássica “Eu estou cansado”. E em 100% dos casos cada um de nós ouvirá: Eu também. Quem está casado há mais de doze horas sabe que esta é a resposta... 

Basta eu dizer: eu acordei às sete; que eu ouvirei ‘eu acordei às seis’. ‘Eu tenho uma dor de cabeça’ e responderão ‘eu tenho um tumor’... Ou seja‚ há uma concorrência permanente e ninguém escuta ninguém‚ todos emitem sua opinião. Se eu disser a cada um dos senhores uma informação ao estilo “meu mais velho tem dezenove”‚ eu escutarei o quê? O meu tem 17‚ o meu tem 30 e assim por diante. Se eu disser uma informação inútil‚ mas bela‚ como ‘eu sou de aquário’‚ as pessoas dirão ‘eu sou de libra’‚ ‘eu sou de peixes’. Ninguém escuta ninguém.

Eu chego a sugerir às pessoas que o profissional inovador será o profissional que escuta ao invés de falar. Ou ao menos que escutem o conselho de um célebre irlandês‚ que disse que‚ no silêncio das pessoas‚ há dúvidas se somos geniais ou estúpidos. E ao abrirmos a boca resolvemos isso imediatamente. Então é útil‚ nas reuniões‚ utilizarmos expressões bovinas: “hummmmm”.

Mas eu chego a sugerir‚ de forma radical‚ que os senhores escutem as pessoas com as quais se casaram... Eu sei que é uma ideia muito ousada escutar maridos‚ escutar mulheres... É uma ideia nova que estou lançando: escutar de verdade.

Nosso individualismo vem acompanhado de solução de fronteiras‚ relativismo‚ incertezas muito grandes. Não temos mais aquelas certezas‚ inclusive violentas‚ que marcaram a Revolução Francesa ou a Revolução Russa. As grandes utopias falharam. O socialismo é um fenômeno que só existe hoje em Cuba‚ Coreia do Norte e diretório acadêmico da área de Humanas... Em breve‚ só no diretório acadêmico da área de Humanas... As utopias que alimentaram a minha geração desabaram quase todas e a única coisa que de fato nos une é que a nossa sociedade é uma sociedade que transformou o homem produtor em um homem consumidor. Nós somos pelo consumo.

Existe em particular uma camiseta polo que tem um cavalo que a cada edição aumenta de tamanho. O cavalo já está dando a volta na camiseta porque nós viramos outdoors e‚ como diz Bauman‚ deixamos de ser sujeitos para nos tornarmos objetos. Somos pessoas que pagam para ostentar uma marca que se serve disso para aumentar o consumo. Somos consumidores e não consumir é considerado hoje uma exclusão brutal. A capacidade de consumir é um desejo muito grande. Somos consumidores... Não é à toa que‚ na fantasia muito contemporânea dos zumbis‚ eles sempre invadem um shopping e ficam vagando em busca de cérebros. 

Somos uma sociedade onde as redes sociais informam com tal riqueza de detalhes que eu posso afirmar que‚ no apogeu da ditadura militar‚ governo Médici‚ Médici não sabia sobre os cidadãos o que o apogeu da democracia de hoje sabe. Um líder democrático dos Estados Unidos‚ do Brasil ou da França tem mais informação sobre seus cidadãos do que Hitler teve sobre os alemães. E nós ainda informamos‚ no celular‚ o que estamos comprando‚ fotografamos‚ oferecemos o número do CPF em uma nota fiscal de alguma promoção e ainda informamos‚ a todo instante‚ onde estamos nessas coleiras eletrônicas das quais nos orgulhamos.

Somos uma sociedade confessional. E é lógico que tendemos a confundir o fim de um mundo com o fim do mundo‚ porque os grandes sistemas utópicos e ideológicos desabaram e restaram sistemas como autoajuda‚ teologia da prosperidade ou do empreendedorismo‚ que são forma teológicas contemporâneas‚ os quais ensinam o paraíso‚ que pode ser o sucesso ou a felicidade.

Autoajuda‚ como diz o nome‚ ajuda quem escreve o livro‚ por isso é autoajuda... Quem escreve um livro de autoajuda não diz ajuda coletiva ou social‚ mas diz autoajuda. Há uma autora‚ que eu tive que ler em função de um texto que escrevi‚ que nos conta um segredo extraordinário: Ela diz que o que eu penso‚ acontece... Este é um caso típico de paciente esquizofrênico. Os esquizofrênicos tendem a pensar que o que eles pensam é real‚ porque eles não podem fazer de outro jeito. Ao ler este texto‚ tive a vontade de empurrar a autora de um prédio alto e dizer: agora pense que você pode voar. Pensa fixamente e se concentra nisso.

Mas a autoajuda pertence ao campo de uma filosofia aguada‚ onde o pensamento não crítico nos obriga inclusive hoje a sermos felizes. Nenhum RH contrata funcionários que não sejam felizes. Vocês sabem hoje que o único defeito que se permite em uma entrevista de emprego é o perfeccionismo. Diga um defeito: "Perfeccionismo". Diga um defeito de verdade: "Colocar a empresa acima da família". Não‚ mas um defeito mesmo: "Obsessão por horário". Ninguém tem defeitos‚ todos somos felizes e postamos fotos dos nossos almoços‚ como se estivéssemos na Etiópia e almoçar fosse um fato extraordinário.

Somos perfeccionistas‚ mas somos – na verdade – pessoas que postamos a todo instante “felicidade”‚ porque é obrigatório ser feliz e quem não é feliz deve tomar um remédio. Não era de bom tom ser feliz há 80 anos. Nossos avós não sorriam nas fotos‚ porque gente que sorria era idiota. Hoje‚ algumas máquinas não batem se você não sorrir. 

Esta questão atinge agora em particular o tema que nos envolve nesta noite‚ que são os valores. Aquela certeza que nossos pais e avós tiveram sobre valores. Aquela certeza absoluta sobre o que era certo e errado. Essa certeza sofre um ritmo frenético de um mundo em particular‚ este conceito desta palavra grega‚ que é a Ética.

Vamos tentar entender porque este é o valor mais atingido. A ética se divide em dois grandes campos. Um campo: A grande ética aristotélica ou platônica ou moderna em Spinoza. A ética à maneira dos geômetras. A ética que rege o comportamento político e social. O outro: a simpática e pequena ética que surge nas cortes europeias‚ chamada de Etiqueta‚ que não era um tratado de frescura sobre garfo e faca‚ mas reflexões sobre como respeitar o espaço dos outros. 

A Etiqueta trata do respeito ao espaço alheio. Por exemplo‚ por sina‚ carma‚ destino ou castigo‚ do meu lado‚ no avião‚ sempre senta alguém dando ré no muco e engolindo seu muco nasal‚ o voo inteiro. É sina. Eu aceito como castigo desta encarnação. Sempre que houver alguém dando ré no muco‚ estará do meu lado no avião. A etiqueta diz: não perturbe os outros com a sua decisão. 

Eu me formei em piano. Eu gosto muito de Bach‚ eu toco Bach todas as semanas‚ mas me irritam um pouco os vizinhos que gostam de futebol. Porque‚ apesar de eu adorar Bach‚ eu nunca cheguei à janela e gritei “chupa‚ Beethoven”‚ por exemplo. Nunca fiz uma coisa dessas‚ porque respeito quem não gosta de Bach.

Eu moro numa rua que termina seis quarteirões depois do Estádio do Palmeiras. Então vocês imaginem a minha noite de hoje. Eu voltei de Goiânia e fui obrigado a ouvir o entusiasmo daquela torcida. Tentei amá-los. É uma recomendação do Evangelho. Não consegui‚ mas é um esforço muito grande. [Nota: A palestra foi no dia seguinte à conquista do título da Copa do Brasil pelo Palmeiras]

Nicômaco‚ nome tanto do filho quanto do pai de Aristóteles‚ recebeu de presente do pai um tratado geral sobre a ética não baseada na religião‚ uma ética não moral. Ética moral é aquela que pressupõe um Deus‚ que me estabeleça o certo e o errado: os dez mandamentos cristãos‚ os 613 mandamentos judaicos‚ como – por exemplo – o quinto mandamento Cristão e o sexto judaico‚ não matar‚ ou o quarto Cristão e o quinto judaico‚ honrar pai e mãe. Nicômaco tenta pensar a Ética do ponto de vista racional.

A moral é mais antiga que a ética. É aquilo que as freiras do meu colégio no Rio Grande do Sul colocaram no banheiro: um cartaz enorme escrito “Deus te vê”. Era uma tentativa das religiosas de inibirem iniciativas individuais ou coletivas naquele estabelecimento com relativo sucesso... Eu levei anos de psicanálise para tirar esta ideia de que Deus estava nos banheiros observando o que você fazia...

A ética em Nicômaco é contrária à ética platônica‚ que não é nosso objetivo debater‚ que é a ética que diz literalmente que a virtude ética é adquirida pelo hábito‚ ou seja‚ ninguém nasce ético‚ nenhum bebê é ético. Nenhuma criança é moral‚ mas tem de ser educada. Platão falava de rememoração. Aristóteles disse que não: não nascemos‚ mas somos capazes de adquirir e aperfeiçoá-la.

O homem‚ um animal político‚ é capaz de adquirir ética‚ regras de comportamento. Para isso‚ é preciso de prática e tempo. 

Primeira característica da ética aristotélica fabulosamente correta: Para que haja pessoas éticas‚ tem que haver atitudes e ensinamentos éticos. Pra que haja uma sociedade ética‚ alguém tem que ensinar e estimular o consenso e punir‚ coerção. Não existe sociedade sem coerção e consenso. O consenso garante que as pessoas concordem com princípios gerais. A coerção garante que os que não concordem sejam punidos. Não existe sociedade possível baseada só na coerção e não existe sociedade possível baseada só no consenso. A lei pressupõe o estímulo ao bem e a punição do mal.

Sabemos que os valores éticos são mutáveis. Sabemos que os valores éticos de hoje não são os do Império Romano. Sabemos que bem e mal são vistos historicamente‚ mas cada época estimulou esta prática ética. Como digo aos meus alunos‚ confio em campanhas de trânsito que estimulem os motoristas brasileiros a evitar a barbárie que nós temos hoje de 58 mil mortos por ano‚ o mesmo número de norte-americanos mortos na guerra do Vietnã. Confio em campanhas educativas‚ confio nas escolas‚ confio nos órgãos públicos que divulgam normas de trânsito‚ e confio em radares e multas também‚ porque sou humano. E onde houver humano eu confio nesta combinação aristotélica de estímulo à virtude e punição da não virtude.

A principal conclusão do livro de Aristóteles é aquela que atravessa dois mil e trezentos anos na nossa sociedade: onde eu faço parte desse problema? A música do belo vídeo inicial dizia “Depende de nós” [Cita vídeo institucional apresentado‚ antes da palestra‚ pelo Ministério Público de Mato Grosso]. Claro que a música não foi composta lendo Aristóteles‚ mas a ideia é esta. 

É irritante‚ no Brasil‚ a capacidade das pessoas de dissociar‚ em seu comportamento‚ o comportamento das autoridades. É irritante o dentista que passa uma hora falando mal do governo e‚ ao final da hora de trabalho‚ me pergunta: o senhor vai querer recibo ou não? E ele não vê esta cadeia que vai do plâncton à baleia‚ ou seja‚ dele à Presidência. Ele não vê este profundo elo entre a falta de ética no trânsito‚ a falta de ética nas notas fiscais‚ a falta de ética na escola‚ a falta de ética de pais que compram atestados médicos e dão ao filho a pior lição que o pai pode dar ao filho: de que posso mentir se isso for conveniente ao que eu quero. Esta é a pior herança que um pai pode dar ao filho.

Esta ideia de responsabilidade é a base de todo sistema ético: onde eu entro nesta história? Os iluministas‚ no verbete da enciclopédia sobre moral e ética‚ dão uma definição que se tornou clássica: Qual é o grau da minha liberdade moral ou ética? O que começa no outro... Eu tenho direito a tudo que não atrapalhe aos outros. Por isso que eu não tenho direito a roubar‚ especialmente a roubar o que é de todos. Esta é uma definição aristotélica‚ que é redefinida pelo Iluminismo e fala dessa junção entre o bem individual e o bem comum; entre a capacidade que eu tenho de pensar em mim‚ que é uma questão importante‚ e a capacidade que eu tenho de pensar no coletivo‚ já que‚ ao entrar em sociedade‚ eu abro mão de algumas liberdades.

Tudo isso nos leva a uma reflexão‚ agora não mais Aristotélica‚ mas Spinoziana‚ sobre o grau da contravenção. Todos que estão nesta sala concordam‚ imediatamente‚ que roubar dinheiro público e particular é uma falta de ética. Porém muitos de nós‚ inocentemente‚ levamos lápis do Tribunal para casa... Cai na nossa mochila‚ o lápis cai‚ acidentalmente‚ e vai se acumulando na nossa casa. Ou roubo o tempo no qual eu sou pago para trabalhar atualizando o face‚ que é um roubo de tempo. Isso é ético? Não. Isso é igual a ética dos corruptos? E entramos em um campo cediço e problemático. 

Em todo caso‚ nós temos uma admiração pelas pessoas dinâmicas e inteligentes e‚ no extremo‚ não éticas. Em geral‚ a sociedade brasileira não admira os nerds‚ apesar do conselho do Bill Gates‚ de que nós devemos respeitar os nerds da escola porque nós trabalharemos para eles depois. Nós gostamos das pessoas que infringem normas. Se uma mulher quiser afastar o risco de outras mulheres sobre o marido dela‚ basta ela dizer que ele é pontual‚ ele é super-honesto‚ ele é carinhoso‚ ele nunca levanta a voz e o interesse das amigas diminuirá imediatamente.

Nós admiramos as pessoas dinâmicas‚ rápidas‚ inteligentes: nós admiramos muito mais aos maus do que aos bons.

Na minha experiência de professor de História eu sei que a aula sobre Hitler causa mais atenção no ensino médio do que a aula sobre Adenauer‚ o democrata que reconstruiu a Alemanha depois da guerra. A ideia de um crime causa mais atenção do que a ideia de uma virtude. A manchete sobre o estupro nos mesmeriza‚ mas publicar “florescem os flamboyants em Cuiabá” não traz o mesmo encantamento.Talvez seja uma questão estrutural.

À esquerda‚ o mais longo desenho animado na história da espécie humana [mostra uma imagem de “Os Simpsons”]: uma menina‚ boa aluna‚ boa filha‚ ecologicamente correta‚ incapaz de mentir [mostra imagem de Liz]‚ um porre completo... À direita‚ um mau aluno‚ que engana o seu amigo‚ engana os pais e é admiradíssimo pelas pessoas‚ que é o Bartholomew Bart Simpson. 

Podemos repetir isso historicamente [Mostrando a foto de dois herdeiros do Trono Inglês]. À direita‚ um bom pai de família‚ consciente dos seus deveres‚ militar etc; à esquerda‚ um maconheiro‚ inclinado às festas de embalo‚ vestido de nazista numa festa à fantasia e o segundo membro mais admirado da Família Real‚ depois da Rainha Elizabeth. As pessoas acham o da direita um pouco insosso. O da esquerda‚ as festas são mais animadas.

Talvez seja a marca da humanidade. Afinal‚ quando Deus estabeleceu o Éden‚ com princípios perfeitos‚ estabeleceu apenas um código ético‚ ou seja‚ podem fazer tudo‚ menos comer esta fruta‚ exatamente o que fizeram. Aqui está estabelecida a sociedade humana.

Expulso do paraíso‚ o casal dessa empresa que fracassa tem dois filhos e um mata o outro‚ 50% de homicídio: esta é a primeira família humana. Dois pais pecadores‚ um filho assassino‚ assim começa a primeira família humana feita diretamente por Deus perfeita. Imaginem como deve ser uma repartição pública‚ porque não foi feita por Deus...

Num dos melhores poemas da língua inglesa‚ Milton‚ no Paraíso Perdido‚ o poeta John Milton‚ fala da cena em que o demônio cai na terra e seu general lamenta o que aconteceu‚ e o demônio diz a ele: eu prefiro reinar no inferno do que servir no paraíso. Até o demônio chama a nossa atenção porque ele é rebelde. Ele é interessante porque ele é rebelde. O demônio é uma figura mais interessante do que os anjinhos‚ porque o demônio marcou a sua liberdade pela falta de fidelidade.

Porém a ética é‚ apesar desse interesse coletivo pela não ética‚ um modo de diálogo. A ética é a única maneira de se conviver em sociedade‚ porque ela estabelece o respeito de uns por outros.

Vejam‚ por exemplo‚ o caso trágico da Síria‚ onde três governos terríveis – os rebeldes‚ a ditadura militar e o Estado Islâmico – disputam o país. Onde ninguém escuta ninguém e não há ética nenhuma. Quando falece a ética por completo num país‚ a população se atira ao mar‚ porque o risco de afogamento é melhor do que ficar na sua pátria. 

A Síria é nosso exemplo perfeito do risco que toda sociedade corre caso abandone o esforço pela ética. A Síria é o exemplo que acontece com o país quando esquecemos o diálogo‚ a tolerância e a ética. A população foge do inferno e prefere arriscar a vida dos filhos no Mediterrâneo a continuar naquela terra. 

A Síria é quase que o quadro trágico para que a gente tenha presente que‚ se a gente não fizer o que a gente tem que fazer‚ o risco é esse. Este é o país onde a ética naufragou por completo. Este é o país que deve servir de exemplo de que a pior das democracias‚ a mais instável das democracias é melhor do que a mais dinâmica das ditaduras. De que o Estado de Direito é uma conquista árdua e a mim‚ historiador‚ dói de forma muito intensa quando eu vejo um jovem defender ou pedir a volta da ditadura militar. Aí eu me considero‚ como historiador‚ um fracassado. 

Se é um jovem que nasceu depois de 85‚ eu me dou ao trabalho de mostrar a foto de Vladimir Herzog na prisão‚ de mostrar o Caso Riocentro e os muitos casos de corrupção da ditadura‚ que as pessoas esqueceram e que não eram investigados. Eu me dou esse trabalho porque sou um professor. Se é um velho‚ eu considero portador de Alzheimer ou sem caráter‚ porque alguém defender ditadura militar é‚ em primeiro lugar‚ um crime contra as cláusulas pétreas da nossa Constituição‚ que estabelecem o Brasil como um Estado de Direito‚ onde as Forças Armadas servem ao Executivo eleito. Defender a volta da ditadura é‚ no fundo‚ flertar com este tipo de barbárie‚ que representa tudo isso. 

O preço da liberdade é a eterna vigilância‚ diziam os americanos fundadores do país. Brecht foi mais duro e disse: A cadela do fascismo está sempre no cio‚ sempre esperando alguém que a fecunde. A cadela do fascismo está em toda esquina‚ sempre esperando alguém que a fecunde.

Ghandi‚ no caminho oposto a este tipo de barbárie‚ um ano antes de ser assassinado em janeiro de 1948‚ nos disse: o que eu devo fazer para ser uma pessoa ética? A coerência ética começa comigo‚ segundo Ghandi. Estou falando de ecologia? Falo. Mas eu tenho que saber se a minha casa recicla lixo ou economiza água. Eu tenho que fazer da minha vida um exemplo. Eu tenho que pensar naquilo que eu indico às pessoas como primeiro sintoma de uma questão ética: Quando eu respeito um ministro do Supremo Tribunal Federal‚ isso não pode ser respeito‚ pode ser apenas estratégia. Quando eu obedeço a um delegado federal‚ isso pode ser apenas medo. O respeito se mede não com o delegado ou com o ministro‚ mas o respeito se mede quando eu respeito a faxineira terceirizada onde eu trabalho. Porque é naquela onde eu não precisaria é que se mede se eu sou uma pessoa ética ou um aproveitador maquiavélico. 

É com as pessoas mais simples que começa o teste ético que Ghandi nos convida. No caso dele‚ com os intocáveis da Índia. No nosso caso‚ com os funcionários da limpeza‚ pessoas da rua‚ com a nossa tendência brasileira‚ clássica‚ coronelística de se impor a pessoas que nos servem. Essa tradição é enorme no Brasil. 

Aristóteles nos diz‚ Bauman analisa‚ Spinoza quase ironiza‚ mas eu volto a essa ideia. Por que eu devo ser ético? Porque a vida com ética é mais fácil do que a vida sem ética. 

Um colega me confessou‚ ano passado‚ que traía a esposa e me explicou que‚ para isso‚ ele tem que apagar do whatsapp tudo permanentemente. O whatsapp é um pouco como herpes: volta. Você apaga e aquilo volta‚ vai pra nuvem... E o faro feminino é notável para essas coisas. Para ir ao motel‚ ele pede um carro emprestado para que a sua placa não seja localizada. Tem que tirar dinheiro vivo para não aparecer no cartão. E‚ para os cheiros do motel não chegarem em sua casa – shampoos e sabonetinhos vagabundos‚ ele leva uma cesta de mixiricas e tangerinas pra que o cheiro se esconda. Já sabem agora que o marido ou a mulher voltando à casa e cheirando mixirica‚ vocês têm uma participação societária no casamento. Eu perguntei ao meu amigo‚ não moralmente‚ não me cabe julgar ninguém‚ mas perguntei: não é mais fácil eu ser fiel do que tudo isso? E se você não quiser ser fiel‚ porque isso acontece‚ não era mais fácil separar?

Aquelas pessoas que baixam aplicativos para ver se tem blitz da polícia porque a carteira está vencida e ficam procurando informações: não é mais fácil eu renovar a carteira? A vida ética é uma vida menos trabalhosa. Por isso que foi dito aqui‚ e eu acredito piamente‚ que quando se investiga uma instituição ou uma pessoa ética‚ ela nada teme‚ ela não tem nada a esconder. Eu não tenho nenhum medo quando a polícia me para. Como disse um aluno meu‚ isso acontece pouco porque a polícia só para jovens... Eu o passei a perseguir abertamente depois dessa ideia... Mas todos os documentos estão em ordem‚ não há problema algum. Eu desço sem problema algum porque neste campo eu sou muito zeloso. 

A vida ética é uma vida mais fácil. É uma vida mais direta e mais linear. Mas a sensação atual que nós temos em 2015 é da onipresença da corrupção. Na verdade‚ como historiador‚ eu decepciono as pessoas lembrando que a corrupção é histórica e endêmica no Brasil. Porém é exatamente nos momentos de democracia que ela tem chance de ser combatida‚ como Rousseau previu no Contrato Social: que a democracia era o sistema que permitia ser corrigido‚ enquanto a ditadura era um sistema que apenas permitia ser derrubado. A democracia é o sistema que permite que as suas muitas imperfeições venham à tona.

Se eu procurar nos dicionários os conceitos de corrupção‚ é muito curioso que apenas em quarto lugar eu vou encontrar‚ tanto no Houaiss quanto no Aurélio‚ o sentido político. Eu vou encontrar o conceito com o qual‚ por exemplo‚ Newton trabalhou‚ de corrupção da matéria. Mas hoje é o quarto conceito que nos ocupa o primeiro lugar. Ou seja‚ é o sentido de corrupção política que se apropriou da palavra corrupção porque‚ não faz muito tempo‚ e podemos datar isso no fim do século XVIII e início do XIX‚ a noção de bem comum e a ideia de uma política de preservar o bem comum. Essa é uma novidade.

Por isso que eu pego um exemplo que todos os livros didáticos dão para nos dar uma noção do caráter radical‚ no sentido de raiz‚ e histórico da corrupção brasileira. No primeiro documento que descreve este país‚ a carta de Pero Vaz de Caminha‚ ao terminar esse documento extraordinário‚ ele diz‚ no seu último parágrafo: “Peço que‚ por me fazer singular mercê‚ mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório‚ meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza”. Nosso primeiro documento se encerra com um pedido de emprego para um parente. E os autores costumam colocar isso como um exemplo de nepotismo.

Isso é anacrônico. A lei contra o nepotismo no Brasil é recente. Não havia sequer a palavra nesse momento‚ palavra que vai ser criada em função da política da Igreja dos papas com os seus sobrinhos. O rei é o único que dá empregos. Não há concurso público no antigo regime. Logo‚ a única chance de eu ter um emprego é pedindo ao rei. Não há nenhuma ilegalidade no pedido de Pero Vaz de Caminha. Mas aos olhos de hoje isso é ilegal‚ imoral e não ético.

Porém é importante lembrar que‚ no antigo regime que dominou antes o período colonial brasileiro‚ não há distinção de público e privado. As autoridades são enviadas ao Brasil e o objetivo é que elas enriqueçam. Tomás Antônio Gonzaga‚ desembargador das Minas Gerais‚ herói da Inconfidência‚ português de nascimento‚ era notável por gerenciar um campo muito rico do Direito das Minas Gerais‚ que era o Juizado dos Órfãos e Ausentes. Ou seja‚ a administração de heranças. E Tomás Antônio Gonzaga‚ graças a isso‚ enriqueceu rapidamente na colônia.

Um de nossos heróis inconfidentes contava com o apoio de outro herói inconfidente‚ o advogado Cláudio Manoel da Costa. Ambos oriundos de Coimbra‚ um português e um brasileiro‚ ambos poetas e ambos corruptos no padrão tanto português da época quanto no padrão atual.

Estas questões começam a ser reviradas pelas revoluções burguesas que expõem ideias em defesa do interesse público. Quando Luís XIV afasta o seu primeiro ministro da Fazenda‚ Fouquet‚ não o afasta porque Fouquet prejudicou a França‚ mas porque‚ ao visitar o castelo de Fouquet‚ o rei desconfiou que Fouquet roubasse do rei‚ e não da França‚ porque o Estado sou eu‚  "L"État c"est moi".

A ideia de transparência‚ de coisa pública‚ de republicanismo é muito recente. Ela tem a ver muito com o romantismo do século XIX‚ com o quadro‚ hoje no Louvre‚ no qual Marianne‚ símbolo da França‚ empunha o drapeau tricolor e leva a nação a derrubar o Estado‚ em uma distinção exótica do século anterior. E segundo Habermas‚ no seu tratado sobre ética contemporânea‚ o Estado passou a ser o que nós esperamos dele. Ao invés de ser um produtor de opacidade‚ produtor de transparência. Hoje eu posso acessar na Internet os gastos e licitações do banheiro do Palácio do Planalto‚ que papel higiênico o Palácio do Planalto consome‚ caso vocês tenham interesse. 

É muito importante lembrar que a nação francesa nunca soube quanto foi que os reis Luís XV ou o seu bisavô Luís XIV gastaram com suas amantes‚ porque a nação era opaca. O primeiro orçamento moderno foi publicado no ano da Revolução Francesa por Necker‚ ministro de Luís XVI. Foi uma das causas da queda de Necker e de Luís XVI. Quando a nação começou a ver coisas...

A transparência é uma exigência contemporânea. Nós estamos lidando com isso. Como lembra o professor Cristovão Buarque‚ eterno candidato à Presidência pelo campo da Educação‚ nós temos mais de cinco mil anos de autoritarismo na espécie humana e pouco mais de duzentos de democracia. Logo‚ nós temos que aprender que este é um conceito relativamente novo. E aí há um problema: Quem fala por este povo que Marianne conduziu? Quem fala por essa nação?

Nós temos aí um problema grave‚ porque‚ em vários momentos da história do Brasil‚ da América Latina e até da Europa‚ os militares falaram pela nação. Em vários momentos‚ quebraram a ordem institucional‚ com o apoio de setores da sociedade civil‚ em nome dessa chamada nação. 

Em vários momentos‚ populistas falaram em nome da nação. Em vários momentos‚ Chávez‚ Moreno e outros falaram em nome da nação‚ inclusive cerceando algumas liberdades fundamentais‚ como a Venezuela vive. 

Em vários momentos‚ pessoas de Direita‚ como Pinochet‚ derrubaram um governo eleito e falaram pela nação ou crendo que falavam pela nação. 

Nas manifestações que nós temos na avenida Paulista com frequência muitas pessoas se dizem representantes da verdadeira nação e combatem o Estado que foi eleito por esta mesma nação. 

Então nós temos um problema de representatividade e legalidade em nome disso no qual se diz que eu não pertenço a nenhum partido‚ e chamamos isso de Bonapartismo: eu estou acima das políticas partidárias. Na verdade‚ é o contrário do que o senso comum diz. O senso comum diz que a política é corrupta e podre. E eu digo‚ citando vários autores‚ inclusive o recente livro da Márcia Tiburi‚ “Como conversar com um facista”‚ a política é o campo que pode redimir tudo isso porque é na política bem feita e bem realizada‚ em partido bem estruturado e com ideologia clara‚ em político como administrador honesto e probo‚ que está a esperança da nação‚ e não o seu fim. A política é um excelente futuro. O político é uma grande vocação.

O Papa Pio XI definiu o político abaixo do sacerdote‚ como alguém que nega o seu bem estar pelo benefício dos outros. Essa definição hoje poder nos parecer estranha é um sinal dos tempos‚ ou seja‚ a exigência enorme de total transparência e separação absoluta entre o público e o privado. 

Lembrando que nossas sucessivas constituições‚ que os senhores conhecem mais do que eu‚ desde a primeira‚ em 25 de março de 1824‚ e passando por fevereiro de 1891‚ junho de 1934‚ novembro de 1937‚ 46‚ 67‚ 69‚ 88... Tudo aquilo que se sucedeu no Brasil como corte‚ constituições promulgadas ou outorgadas‚ manifestaram um crescente direcionamento para este ponto que nós temos de extensos direitos individuais‚ cláusulas pétreas fabulosamente estruturadas para a liberdade e proteção do indivíduo. E com todos os problemas... Um dos articuladores desta Constituição‚ Ulysses Guimarães‚ disse ao promulgá-la: Esta Constituição se reconhece imperfeita‚ porque pressupõe emendas para o futuro. Porque a lei é orgânica‚ como previu Montesquieu. A lei pétrea é a lei religiosa. A lei humana é orgânica. 

Mas a mesma sociedade que vive exigindo a maior transparência‚ especialmente em seus seguimentos de classe média e alta‚ cada vez mais exige que o Estado seja transparente e público‚ mas particularmente‚ em São Paulo‚ fecha a sua rua ilegalmente [Mostra imagem de rua pública transformada em condomínio ilegal em bairro nobre de São Paulo]‚ não permitindo o fluxo de pessoas em nome do medo e da insegurança. Eu entendo o medo‚ eu entendo a insegurança. Mas é um ato ilegal. Em São Paulo‚ isso é muito forte. Eu não sei se já ocorre em Cuiabá. As pessoas se apropriam do espaço público. É uma camarotização da sociedade‚ do qual‚ em função de uma recente maior distribuição de renda e ascensão das classes C e D‚ nós passamos a desejar mais ainda as salas vips‚ as classes executivas e as separações. 

A demofobia‚ o horror ao povo‚ se juntou a tradições históricas do racismo‚ da misoginia e da homofobia. Somos uma sociedade preconceituosa‚ profundamente preconceituosa e muitas vezes criminosamente preconceituosa‚ no qual jovens saem para dar um passeio em Brasília e decidem tocar fogo em um índio‚ numa parada de ônibus. Este tipo de crime‚ em que eu poderia passar a noite citando dezenas de outros‚ mostra este pequeno fascista que habita ainda no seio da sociedade brasileira. O que é o fascista? É aquele que pressupõe a eliminação do que ele considera diferente ou inferior. 

A camarotização enfrenta‚ no Poder Judiciário‚ uma questão específica. Em primeiro lugar‚ aquilo que Sérgio Buarque de Holanda dizia em 36‚ como segundo autor‚ depois de Gilberto Freire e antes de Caio Prado Junior‚ a definir a sociedade brasileira na década que se tentou fazer isso‚ falando no seu célebre capítulo: O homem cordial. Homem cordial não quer dizer homem simpático. Homem cordial é aquele que funciona pelo coração.

Sérgio Buarque não quis dizer que somos educados ou polidos‚ pelo contrário. Ele quis dizer que nós‚ quando matamos ou quando amamos‚ amamos passionalmente e matamos passionalmente. Somos incapazes de uma sociedade organizada racionalmente‚ dizia ele em 36. E isso significa uma noção cordial de lei. 

Exemplo que eu vivo como professor: Pego um aluno colando e ele me diz “o senhor vai tirar minha prova? Achei que o senhor gostasse de mim”. E eu respondo: Gosto mais da ética do que de você. E uso um princípio da teologia patrística medieval: Eu odeio o pecado‚ mas amo o pecador. Eu te adoro‚ meu querido‚ mas vai ter zero nesta prova porque isso é estelionato.

Ou seja‚ a ideia de que eu não devo ser punido porque sou amigo do rei ou porque sou próximo do poder. Ou do que foi dito por uma pessoa sobre um ex-presidente: é um homem com tal biografia e envergadura que não pode ser processado. Esta é uma ideia não compatível com a República‚ com a democracia. Todos podemos ser processados‚ todos podemos ir às barras da lei e todos temos direito a esta defesa para trazer à tona a ideia de Justiça.

Mas a noção cordial de lei‚ de que sou amigo‚ a noção de que na República Velha fazia os Accioly dominarem o Ceará‚ os Cavalcanti dominarem Pernambuco‚ os Borges de Medeiros dominarem o Rio Grande do Sul ou como se dizia na República Velha‚ da Família Cavalcanti: Meu amigo‚ muito cuidado‚ porque em Pernambuco você é Cavalcanti‚ você é cavalgado. 

A ideia de que havia famílias privilegiadas‚ aristocráticas e oligárquicas‚ essa noção cordial de lei‚ é uma praga no Brasil. Porque nossa noção de lei tem uma praga terrível‚ de 388 anos de uma barbárie‚ que é a escravidão. 

A escravidão significou a retirada entre 4 a 6 ou talvez 7 milhões de seres humanos da África para o Brasil à força‚ contaminando a nossa noção de trabalho pra sempre e estabelecendo a violência extrema contra um ser humano: coisificar o outro; reificar o outro. A escravidão é uma marca muito grande e de 1888‚ domingo‚ 13 de maio‚ a hoje nós demos passos notáveis‚ mas não se superam 388 anos com tanta facilidade.

A ideia que foi representada no Rio de Janeiro no início do século XIX‚ como um fato comum e corriqueiro [mostra uma pintura]: dois elementos brasileiros‚ brancos‚ e sabemos que são livres porque portam calçados‚ já que andar descalço é típico de escravo‚ jogam restos de comida para crianças negras‚ são servidos por negros também. Isso foi retratado tanto por Debret quanto por Rugendas como uma cena cotidiana no Brasil. Não é à toa que o espaço doméstico é o espaço mais resistente sequer da legislação trabalhista.

Só para lembrar aos senhores que conhecem mais legislação do que eu. Em 1931‚ Getúlio criou o Ministério da Indústria‚ Comércio e Trabalho e entregou ao avô do futuro presidente Collor‚ Lindolfo. Em 1931‚ operários começaram a receber direitos‚ que em 43 se transformaram na CLT. Em 2015‚ domésticas tiveram acesso ao Fundo de Garantia plena. Por que essa demora? Esta imagem responde isso. Porque a escravidão perdurou como memória no trabalho doméstico muito mais do que em qualquer outro lugar.

A ideia de que eu posso ir a passeio com duas pessoas me levando‚ alguém levando o guarda-chuva e uma terceira pessoa levando o lanchinho [mostra um quadro em que um homem branco é carregado em uma rede por dois escravos‚ em um passeio]... Se nós substituirmos a rede por uma BMW blindada‚ com um motorista‚ um segurança e uma babá‚ nós teremos a atualização dessa ideia.

O racismo‚ ao lado da misoginia‚ o racismo‚ ao lado da violência contra as mulheres‚ é a base da violência na sociedade brasileira. Violência contra as mulheres‚ contra a qual começamos a lutar recentemente‚ com números assustadores da cultura do estupro e da violência no Brasil‚ e o racismo são duas marcas que nós vamos consumir uma vida inteira lutando. O fato de ter se tornado crime inafiançável não mudou a tradição brasileira‚ apenas tornou os racistas às vezes ligeiramente mais prudentes. Ligeiramente...

Em primeiro lugar‚ a nossa tradição jurídica é de não isonomia. Nossa frase mais clássica na ética brasileira é: você sabe com quem está falando? Ou seja‚ a ideia de que eu devo conseguir privilégios em função de um nascimento‚ de uma posse ou de um cargo é uma ideia que faz parte da nossa estrutura. A ideia da hermenêutica clássica no Brasil de interpretação que atinge tudo: mas você parou em cima da faixa? Foi só um pouquinho‚ mas porque hoje está chovendo... Isso é hermenêutica jurídica brasileira. Você furou o farol? É que já é mais de nove e meia da noite e eu sempre furo o farol mais de nove e meia da noite... Isso é hermenêutica brasileira. Ou seja‚ a capacidade de interpretar a regra permanentemente. De sempre interpretá-la a seu favor e‚ finalmente‚ estabelecer um juízo prévio ao fato‚ que é o preconceito. 

O agente público‚ do qual eu me considero parte por ser professor de uma universidade pública‚ o agente público‚ que são vários dos senhores aqui presentes‚ é na tradição brasileira o símbolo da lei. É o famoso Vidigal‚ primeiro chefe de polícia do Rio de Janeiro‚ imortalizado em um morro do Rio de Janeiro e presente no nosso primeiro romance urbano‚ “Memórias de um sargento de milícias”‚ o famoso Vidigal. O agente público é o símbolo da lei e da possibilidade de nação. Os americanos o chamam de Blue line‚ a linha azul do uniforme da polícia‚ que separa a população da barbárie. O agente público‚ que é uma referência de valor. Porque se é verdade que todos estamos obrigados ao comportamento ético‚ é verdade que o agente público está duplamente obrigado: como cidadão de um país e como representante da possibilidade daquele país. Se é verdade que é errado roubar para qualquer pessoa‚ o roubo numa empresa prejudica a empresa‚ o roubo no Estado prejudica a nação inteira.

Por isso que o roubo no Estado é punido no pior dos infernos. Quem rouba‚ quem é corrupto dos bens públicos‚ deve ficar amarrado em um lugar vendo televisão com programas dominicais pelo resto da eternidade‚ amarrado numa cadeira e ouvindo bandas de axé pelo resto da eternidade para puni-lo por esta questão‚ salvo se alguém aqui é membro de uma banda de axé e é exceção do que estou falando.

O agente público é particularmente obrigado porque aqui eu me encaminho à conclusão.

Nós temos uma noção errada de democracia no Brasil. Quando se lutou contra a ditadura na campanha das Diretas Já‚ querendo mudar a maneira de se fazer a eleição presidencial; quando a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso; quando foram eleitos indiretamente Tancredo Neves e José Sarney; quando tomou posse a Nova República‚ com a emoção da Fafá de Belém cantando e colocando toda a sua energia à serviço desse momento nacional‚ cometendo inclusive o crime de cantar o hino nacional em outro andamento – o hino nacional só pode ser cantado em um andamento e em uma tonalidade‚ eu fui professor de Moral e Cívida e OSPB‚ olha a minha idade –; quando se faz este tipo de questão; quando se suspira e canta Coração de Estudante‚ de Milton Nascimento‚ nós imaginávamos‚ um pouco ingênuos‚ que a aurora da liberdade consagrada pela Constituição de 88 significaria a redenção da nação. 

Descobrimos que a Constituição era um passo importante‚ mas que quem havia roubado historicamente continuava vivo‚ atuante e sedento. Que a democracia não havia implantado a ética‚ talvez implantado um pouco de transparência. E descobrimos‚ com uma certa dor‚ que o mundo continuava violento‚ preconceituoso‚ corrupto‚ bastante elitista e incapaz de resolver o problema estrutural dessa terra‚ que era a educação.

Em 2015‚ quase 30 anos após a restauração da democracia‚ ainda temos 10% de analfabetos funcionais totais e prováveis 50% de analfabetos parciais. Com esses números‚ nossa chance de desenvolvimento é baixa. Enquanto não se atacar esta questão‚ esta chance de desenvolvimento é baixa. Talvez porque os corruptos tenham preconceito com a educação. 

Foi dito aqui que foram [apreendidos em processos contra corruptos no Estado de Mato Grosso] coberturas‚ helicópteros e bens... nunca um livro é apreendido entre os bens dos corruptos. Nunca uma obra rara‚ uma biblioteca extensa. “Foi apreendida uma maravilhosa biblioteca na residência de fulano...” Nunca! Nunca! Porque o que equivale um corrupto aos outros é a falta de investimento‚ crença e aposta na educação. 

A democracia é frágil. Ela depende de um acordo diário. Disse Churchill que ela é o pior dos sistemas‚ com exceção de todos os outros. 

A democracia é instável. Ela representa a combinação de diversas questões sociais contraditórias. É própria da democracia a contradição‚ a ida e vinda‚ o protelamento‚ o choque. É próprio da democracia que os poderes‚ como disse Montesquieu‚ se autoequilibrem. É próprio da democracia a diversidade‚ partidos opostos e distintos.

É bom que‚ no Congresso Nacional‚ tenha o indivíduo conservador que represente uma parcela da nação que é conservadora. É bom que‚ no Congresso Nacional‚ tenha o indivíduo radical de esquerda‚ porque uma parcela da nação é radical de esquerda. É bom que‚ no Congresso Nacional‚ exista o indivíduo religioso e que exista o indivíduo ateu. 

Como eu disse em um jornal uma vez‚ quando me perguntaram o que eu achava do símbolo de uma cruz católica no Senado e na Câmara dos Deputados‚ escapou-me a observação de que aquilo era um sofrimento para a cruz‚ porque Jesus foi crucificado ao lado de apenas dois ladrões e conseguiu a conversão de um... São 513 deputados... Haja Cristo‚ haja cruz. Se eu fosse muito religioso eu exigiria a retirada da cruz do Congresso porque ofenderia o símbolo da minha fé. Não pelo princípio republicano da laicidade do Estado‚ mas por respeito ao meu objeto de veneração. 

É bom que o Congresso seja diversificado e que lá tenha – como tem – uma deputada cadeirante‚ um deputado da bancada da bala‚ e que‚ dentro da lei‚ todos tenham voz e a capacidade de representar uma nação de 204 milhões de pessoas diversas. Paulistas são diferentes de cariocas. Gaúchos são diferentes de mineiros. E isso é bom porque a tolerância nos ensina que a diversidade nos enriquece‚ e não nos atrapalha. 

Diz o Macaco Simão‚ por exemplo‚ autor da Folha de São Paulo‚ que paulista tira férias para estressar o Brasil. Paulista vai sempre para fora de São Paulo para reclamar de horário no Brasil inteiro. É bom que existam paulistas e é bom que existam pessoas felizes também no planeta... É bom que tenha gente desestressada... É meu Estado‚ não natal‚ mas de coração.

A noção de democracia é a convivência com a diversidade. A noção de democracia é a convivência com diferentes concepções‚ porque do diálogo nasce a possibilidade do enriquecimento‚ da tolerância recíproca e‚ acima da tolerância‚ da aceitação dessa diferença. 

Eu usei uma vez em aula a seguinte metáfora: Por que eu sou radicalmente democrata? Porque eu tenho que entender que há pessoas que gostam de uma das coisas que eu mais odeio no mundo‚ que é coentro. Tem gente que gosta de coentro. Eu nunca vou entender isso. Tem gente que paga por coentro. Tem gente que pede para acrescentar coentro... Não posso crer que sejam pessoas normais quanto ao item paladar. Eu abomino coentro. Não obstante‚ eu tenho que aceitar como meu irmão‚ criado à minha imagem e semelhança e iguais em direito‚ os que comem coentro. E isso é a democracia. E eu aceito e repito diariamente: uma pessoa que gosta de coentro no fundo é normal‚ bem no fundo é normal.

Eu tenho que aceitar que as pessoas sejam diferentes. A democracia é o exercício da diferença desenvolvido diariamente. Das pessoas que estão à minha frente no avião e tem ritmos distintos do meu para sentar ou levantar. Ou que estão esperando o voo há uma hora‚ como hoje‚ e assim que entram no avião procuram o banheiro‚ já que o banheiro do aeroporto‚ estável e maior‚ não é tão bom quanto aquele apertadinho do avião. Ou que pegam a sua passagem e atravessam o corredor‚ porque têm prioridade‚ e lá no meio descobrem que eram 2A e começam a contrariar a piracema e a voltar pelo corredor‚ e eu tenho que aceitá-los como iguais em direitos‚ criados à imagem e semelhança de mim.

É um exercício permanente para que o meu autoritarismo e o meu fascismo não se imponham aos outros. Ou seja‚ que eu aceite essas diferenças‚ que eu aceite apenas distinções previstas na lei para pessoas cadeirantes‚ para pessoas da melhor idade e assim por diante. E que‚ no resto‚ eu aceite a isonomia absoluta de uma sociedade que não é igual a mim‚ felizmente. Isso é a democracia. E a democracia é a única condição para eliminar ou coibir ou diminuir a corrupção.

Para desanimar‚ um exemplo final de desânimo:

A Itália fez a maior operação anticorrupção de todas as democracias ocidentais. Vinte e uma mil pessoas processadas. Senadores‚ bispos‚ mafiosos‚ promotores de justiça presos‚ juízes assassinados. E depois de oito anos de uma limpeza absoluta‚ nunca vista no ocidente europeu democrático‚ encerraram a operação e elegeram Berlusconi‚ símbolo de tudo aquilo que eles lutavam contra. O homem capaz de contratar prostitutas menores para as suas festas e‚ ao ser flagrado‚ dizer: é melhor que ser gay. Ou seja‚ não apenas pedófilo‚ idiota e corrupto‚ mas preconceituoso. Isso é para desanimar porque‚ como diz Lampedusa‚ na obra “O leopardo”‚ eu preciso mudar alguma coisa para que tudo permaneça como sempre esteve.

Para animar: 

A única condição de sobrevivência que nos afasta da barbárie que a Síria enfrenta é que nós temos que entender que a operação Mãos Limpas‚ Operação Lava Jato‚ operação que nós dermos o nome que quisermos‚ começa agora e termina com a segunda vinda de Jesus ou com a primeira‚ se vocês forem judeus. Ou seja‚ este é o tempo da luta contra a corrupção. Todos os dias e de novo e com novo governo‚ que virá com novos truques‚ novas pessoas e novas habilidades. Esta é a questão que nos afasta da barbárie: a luta é permanente e esta luta só é possível na democracia. Esta luta só é possível dentro do conceito de democracia.

Durante muitos anos eu‚ como historiador‚ identifiquei o Legislativo como órgão máximo onde pulsava a democracia‚ pelo seu dinamismo orgânico‚ pelos seus exemplos‚ às vezes heroicos‚ como a recusa em 68 para que os militares processassem o deputado Márcio Moreira Alves‚ que acabou resultando no mais odioso instrumento de exceção‚ que é o Ato Institucional número 5.

Durante muitos anos o Legislativo deu mostras‚ às vezes heroicas‚ dessa resistência. Mas hoje‚ sem dúvida‚ como observador apenas e também como historiador‚ o Judiciário se junta a esta questão. Leis de isonomia não nascem mais do Congresso‚ mas nascem do Supremo Tribunal Federal. Ações que deveriam nascer do Executivo ou do Legislativo são iniciativas de procuradores‚ de juízes e de promotores. Ou seja‚ aqui está contida a ideia alvissareira de democracia.

Nunca havíamos prendido pessoas do próprio governo. Sempre os governos prendem pessoas do governo anterior. Os militares prenderam‚ por exemplo‚ Carlos Lacerda. Os militares‚ por exemplo‚ prenderam Juscelino Kubitschek para averiguações. Getúlio mandou prender Whashington Luiz‚ mas ele foi para o exílio. Prenderam-se sempre os elementos do governo derrotado‚ nunca do governo vigente‚ já que ética era algo a ser cobrado dos que governaram antes de mim ou‚ como diziam as autoridades coloniais‚ depois de mim virá aquele que me fará grande. 

Lembrem-se que a única piada que Tomás de Aquino contou em toda a sua obra‚ a da velhinha de Siracusa‚ muito a propósito‚ falava de uma senhora no sul da Itália‚ que rezava no templo pela grande vida do seu ditador‚ o tirano Dionízio. E Dionízio‚ ao ver esta oração‚ chamou-a‚ porque todos o odiavam‚ e perguntou à velhinha por que rezava pela saúde dele. E a velhinha explicou: quando meus pais eram vivos‚ rezavam pela morte de seu avô e ele morreu. E veio seu pai‚ que foi pior. Então eu rezei pela morte do seu pai‚ e ele morreu‚ e veio o senhor‚ que ainda é pior. Então hoje eu rezo pela sua saúde. 

Vocês não gostavam da ditadura‚ veio o Sarney. Jô Sarney!‚ veio o Collor. Talvez seja a hora de rezar‚ como a velhinha de Siracusa‚ pelo mal conhecido‚ porque até tirano cria zona de conforto.

Mas isso é para exemplificar e para encerrar de que a democracia é um bom sistema‚ porque ela é permanente‚ orgânica‚ defeituosa‚ se autocorrige‚ é cheia de exageros‚ pressupõe uma liberdade de imprensa muitas vezes mal empregada‚ mas liberdade de imprensa mal empregada é melhor do que imprensa calada. Pressupõe poderes muitas vezes em choque‚ o que é melhor do que poderes coagidos. Pressupõe uma população muitas vezes irritada‚ mas isso é melhor do que uma população torturada‚ metralhada ou silenciada. 

Para aqueles que são jovens‚ para encerrar‚ eu posso dizer com uma clareza total de historiador e como um homem de 52 anos: Eu vivi a ditadura; a democracia é melhor. A democracia é infinitamente melhor porque aqui nós podemos discutir‚ punir e eventualmente‚ uma vez na vida‚ colocar um corrupto na cadeia. E isso é um passo‚ um passo de cada vez‚ que dado um atrás do outro produz este grande sonho‚ possível hoje‚ de um país melhor. 

Estamos em um momento extraordinário da história brasileira‚ cheio de perspectivas‚ cheio de dores e de crises. E não é a pior crise econômica da história do Brasil. Sarney entregou o poder com a inflação em 83‚8% ao mês. Não reclamem de 10% ao ano. Porém‚ é um dos momentos de maior crise moral da história do Brasil. E essa crise moral engana as pessoas‚ porque as pessoas supõem que o país inteiro está podre. E‚ como eu lembrei em Brasília – me chamaram para falar de ética no Senado‚ no momento em que grande parte da direção da Petrobrás está aproveitando as belezas de Curitiba‚ a Petrobrás‚ como uma empresa séria e trabalhadora‚ aumentou e chegou ao recorde de produção de 2.4 milhões de barris por dia. Significa que a maioria dos funcionários da Petrobrás é de gente trabalhadora e esforçada. 

A ver um juiz Lalau preso por corrupção‚ apenas traz mais brilho sobre o juiz Moro. A ver um funcionário público corrupto‚ um administrador corrupto‚ apenas revela que a maioria de nós acorda cedo‚ trabalha‚ paga seus impostos e leva uma vida absolutamente esforçada e com ética. Isso é muito animador. 

O Brasil está lutando contra uma parte da sociedade‚ não contra toda a sociedade. Como eu escrevi na minha fan-page‚ do face‚ falta muito‚ mas não falta mais tudo. Eu já tenho ladrão na cadeia. Falta muito‚ mas não falta tudo. Fizemos alguma coisa‚ mas já fizemos‚ e é com esta nota otimista que eu encerro esta intervenção. Muito obrigado!

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