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Terça-Feira, 10 de Julho de 2012, 16h:27

Artigo

Algumas considerações literárias

Algumas considerações literárias:
 
A quem bem pretender vasculhar uma dada realidade regional, Jorge Amado oferece o seu trabalho cuidadoso; Já João Guimarães Rosa e Machado de Assis disponibilizam lupas apropriadas para a investigação da alma, tanto quanto Cervantes, Goethe, Alighieri e Shakespeare.”, do próprio autor.
 
Tudo se resumia em vocação e não em falta de talento. Jamais poderemos dizer que este último faltou a Jorge Amado. Os indicadores inclinam-se por uma existência comprometida com a geografia que o cercava: a Bahia, os seus mares, o seu ecletismo religioso, o seu povo e as suas tradições. Gastava todo o tempo aí, perscrutando a riqueza cultural e existencial da sua gente. Justiça lhe seja feita: era um caso de amor que encontrava o seu apogeu na literatura.
 
Já Guimarães Rosa e Machado de Assis, zelosamente percorriam outras trilhas e ambientes. O primeiro nos Sertões do Norte de Minas, e o segundo no entorno do Rio de Janeiro, convivendo com um ambiente híbrido: a Monarquia e a recém instalada República, temendo esta última e imaginando a primeira sob balizas civilizatórias e desprovida dos “apetrechos” do absolutismo.
 
Realidade e irrealidade misturam-se nos disfarces dos trejeitos artísticos de ambos. É pecado ou sacrilégio referir-se desse modo ao trabalho dos nossos maiores escritores? A sua fundação solidificou-se com esses insumos, os quais receberão, a seguir, a atenção necessária.
 
Mestre Guimarães, em “Grande Sertão: Veredas”, construía a seu novelo com uma linguagem enviesada, revolucionária, juntando vocábulos e incursionando também pela linguagem regional, porém centrada num artigo de fé precioso: desvendar os segredos existenciais do ser humano. Vejamos um notável trecho da referida obra:
 
Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a a ideia e o sentir da gente...”.
 
Magnífico! Não necessitou escorar-se na Psicologia, nem em pesquisas empíricas, para traduzir uma faceta importante dos labirintos da alma. Em sua odisseia pelos Sertões do Norte de Minas Gerais, narrada pelo jagunço Riobaldo a um interlocutor desconhecido, há passagens belíssimas, pontuando a genialidade do autor.
 
Mais alguns desses lances: “A chefia sabe chefiar. Por certo, que, para a jagunçagem os Gerais mal serviam. A pobreza daquelas terras, só pobreza, a sina tristezinha de pouco povo. Aonde o povo no rareado pelo que faltava de água naquelas chapadas; e brabeza de gado que caminha em triste achar”. E ainda: “Rompemos umas duas léguas, em estradas de muita areia. Mas eu já estava agastado. O que nessa vida muda com presteza: é lufo de noruega, caminho de anta em setembro e outubro, e negócios dos sentimentos da gente...”.  O homem e a geografia se fundem no mesmo palco.
 
Em Machado de Assis não é diferente, embora com estilo antagônico ao de Guimarães. Na sua literatura, romântica na primeira fase, e realista na segunda, a regência da universalidade dita o rumo da escrita. É como se o passado, o presente e o futuro formassem um único edifício, em que habita a alma humana. Tal qual se dá no Aleph, um conto extraordinário de Jorge Luís Borges, fotografando numa das repartições de uma casa que estava por ser demolida um espaço que continha toda a realidade. Os seus principais romances consagram essa ideia da literatura universal, a saber: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”.
 
Nos romances do “Bruxo do Cosme Velho”, o leitor se depara, ainda, com seu estilo irônico e humor pessimista, sempre a rir das falhas de caráter do ser humano. Metaforicamente, cede espaço privilegiado à ambição e à vaidade. Esse é o filão psicológico de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, sua principal obra. Nela, deparamo-nos com o seguinte ensinamento:
 
"Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas lhe sobrevivem?".
 
Outra característica do seu estilo reside nas conversas constantes que trava com o leitor, estimulando-o a raciocinar acerca das situações formuladas e a exercitar a imaginação, construindo o desfecho. Em “Dom Casmurro”, os leitores vivem essa situação, relacionada com a personalidade introspectiva de Bentinho...
 
Em “Quincas Borba”, Machado traz a ingenuidade dos homens, simbolizada pelo personagem “Rubião”, que definha diante dos interesses dos seus parceiros. Rubião é sempre uma figura fértil para a plantação. Colheita certa...
 
Em “Esaú e Jacó”, reaquece um tema bíblico, encarnado pelos irmãos Pedro e Paulo, protagonistas de exacerbada rivalidade, demonstrando que o ciúme e a supremacia do ego, às vezes, não perdoam nem o próprio sangue, isso no cenário da transição do Império para a República.
 
Já em “Memorial de Aires”, há críticos a imaginar que Machado tenha introduzido traços de si mesmo no personagem Conselheiro Aires, desfazendo-se da ironia e do sarcasmo dos romances anteriores, para conformar-se diante do crepúsculo da existência. 
 
Em seu trabalho, no dizer do saudoso crítico e ensaísta José Guilherme Merquior, encontramos presente a influência de Schopenhauer, para quem o universo é “vontade cega, obscura e irracional. Um conflitivo querer, fatalmente doloroso, porque jamais satisfeito plenamente”.
 
Esses são os dois maiores expoentes da nossa literatura. Inspirados e cultos. E sabedores das nuances existenciais do ser humano, conhecendo as suas fraquezas, imperfeições e vaidade.
 
Estimular que essa cultura literária seja disseminada é dever de todos os que se preocupam com a preservação do patrimônio cultural brasileiro.
 
Machado de Assis e Guimarães Rosa são ausências permanentes e enfeite da eternidade. O legado de ambos sobreviverá pela história afora, como culto aos artistas que amalgamaram ficção e realidade, desnudando as vicissitudes da alma humana.
 
 
Márcio Florestan Berestinas - É Promotor de Justiça em Alto Araguaia
 
 

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