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Terça-Feira, 06 de Dezembro de 2011, 10h:50

Artigo: de mão em mão

De mão em mão

Márcio Florestan, promotor de Justiça
 
 
De mão em mão...
 
O tempo é como Caixa de Pandora, agente da duplicidade. Libera o bem e o mal simultaneamente. Duas viagens em sentidos opostos. Desconstitui elementos e ambientes alcançados pela harmonia e funcionalidade. Desbota, descora e encarquilha. É um fotógrafo não muito dado à preservação... Mas, também, é fonte segura de ensinamentos e aprendizados, podendo qualificar a ginástica e os exercícios da vida. Vejamos o que a ficção tem a dizer sobre tudo isso.
 
Numa dessas tardes do mês de junho, apropriada aos rigores do inverno, os ciganos chegaram com os seus utensílios e bagagens à conturbada São Lucas das Missões.
 
Lídia Sortilégio, a matriarca do grupo, confessou que foram atraídos pelo intenso movimento de pessoas, agitadas, ansiosas e, provavelmente, infladas de curiosidades.
 
A par disso, o alvorecer e o crepúsculo, guiados artisticamente pelas mãos da natureza, certamente também concorreram, dando claros sinais de que a beleza não era monopólio das paisagens visitadas pelo impressionista Monet, com os seus cavaletes, tintas e pincéis.
 
Mochilas e pertences conheceriam os seus ares preguiçosamente.
 
Na chegada, entretanto, nem tudo eram flores: o ambiente estava dominado pelo medo e desolação, e os dias passaram a qualificar-se como mensageiros de roubos, assaltos e, até, de assassinatos, alterando a linearidade da sua história. A apreensão levantando tenda nesse lugar.
 
Clima auspicioso aos visitantes, pois um quadro assim sombrio requeria a prestação de serviços de profissionais qualificados para desvendar as “reservas do futuro”.
 
Jogo de soma zero, os versados em economia poderiam dizer, com absoluta razão: um perde, o outro ganha. O parágrafo seguinte tende a confirmar a propriedade dessa afirmação.
 
A atenção de um aglutinador de votos foi despertada, malgrado ainda não ter sido beneficiário da manifestação daquela gente. A oportunidade, porém, havia surgido, requerendo os figurinos do profissionalismo e a prancheta de metas... Seu nome: Archimedis Severino das Soluções, alterado em cartório, com a aposição do up grade “das Soluções”, de modo a não persistirem dúvidas sobre a eficácia do seu trabalho.
 
Discurso apetrechado, compatível com o cenário. Rigorosamente se poderia dizer: a indignação seria requisitada pela magia para exercer os atributos desta... As pendências da segurança eram deslocadas dos seus trilhos naturais (dotações orçamentárias suficientes, treinamento, planejamento, remuneração adequada aos profissionais da área), para o alto dos palanques, cujo diagnóstico e solução recebiam a garantia da sua vocalização.
 
Tudo temperado com uma crítica acerba, espinafrando as autoridades da área pelo reduzido número de policiais. Relatos e mais relatos da dura realidade eram organizados pela perplexidade crescente do nosso personagem, como se não tivesse, até então, como consequência dos mandatos exercidos, nenhuma responsabilidade na estrutura da despesa orçamentária.
 
A subtração das posses dos cidadãos de São Lucas das Missões nivelava o espírito de todos num mesmo atoleiro existencial: medo, pavor, dúvidas, recolhimento e incerteza quanto aos dispositivos do futuro. Mas, para ele, no entanto, poderia representar a salvação, pois, de eleição a eleição, a contabilidade reducionista das urnas exigia esforço suplementar...
 
Adaptação aos novos tempos. Quem não se atualiza corre sérios riscos de ser atropelado pelos fatos. Reformulação dos métodos, pois os esquemas dos marqueteiros, dominados pela garimpagem da estatística e por fórmulas de consistência discutível, estavam no limiar da saturação. Camisa de força a ser descartada, enquanto havia tempo. Avançar pisando chão firme! Os larápios seriam enfrentados duramente! Não pelo confronto armado ou pela refrega corporal, mas pela beligerância da sua indignação.
 
A realidade empírica guiando as suas ações, de modo a desbancar o esforço da concorrência... Assim, o nosso Archimedes punha os seus neurônios a trabalhar. O tempo, regente soberano das nossas intenções, seria o árbitro das suas ambições, seguramente. Lei de vigência tão pacífica quanto a lei da gravidade. Archimedes não tinha como fugir desse determinismo.
 
Sociólogos, psicólogos, economistas e especialistas em segurança lá aportaram, por intermediação da Associação Comercial, dos sindicatos patronais e de empregados. A realidade explosiva haveria de ter as suas origens e entranhas expostas à claridade do dia.
 
 
Ao final de exaustivo trabalho, foi apresentado o laudo aguardado, entremeado de persistentes preocupações na apuração das verdadeiras causas, de modo a oferecer soluções capazes de proteger os bolsos e os pertences dos cidadãos (nesse ofício, diga-se de passagem, todo o espectro social e geográfico de São Lucas das Missões estava unido: os habitantes do centro, do lado esquerdo e do lado direito da avenida principal, pois, em matéria de proteção ao bolso, não havia discordâncias acentuadas...):
 
”Buscar as motivações e as origens das atividades marginais é ofício da Psicologia, Psiquiatria, Sociologia e da Criminologia. Pesquisas realizadas nos EUA e na Inglaterra indicam que os principais fatores propagadores dessa anomalia são os lares desorganizados e as crianças desprotegidas da afinidade genealógica. Nessa engrenagem, podem-se acrescentar desarranjos sociais e econômicos, tipologia psicológica criminosa “ornamentando” a personalidade, ausência de políticas públicas educacionais, atuando em áreas de risco, incluindo a promoção do lazer, do esporte, da convivência social e do aprendizado profissional.* (1)
“Inegavelmente, cidades densamente povoadas, com gritantes contrastes sociais e econômicos, são potencialmente explosivas e não podem ser comparadas, como já se pretendeu, às sociedades orientais, cujo conformismo social e abstinência são extraídos dos ensinamentos culturais de Confúcio e de Buda , principalmente”.
 
Esse laudo foi resultado de trabalho isento, feito por lupas que não se deixaram permear das influências da parcialidade e das inclinações pessoais, que conduziriam a abstração para porto inseguro, alterando a formatação dos fatos. Ideologia e ciência bifurcam-se após o aperto de mão inicial da apresentação.
 
Seria devido perguntar: mas e a solução?
 
Razão seja dada à indagação. Foi mera disposição dos elementos da obra, razão pela qual ainda não foi mencionada, mas a necessidade se impõe. Lá vai o relato.
 
A sugestão dos setores locais de segurança, convocados a opinar em face do laudo apresentado, foi taxativa: aquisição de vários barris de vinagre, com acentuado grau de azedume e acidez, dispostos em barricada... Assim se faria o trabalho preventivo. Transportada a barreira pelos mais espertos, em vez de cervejas e sucos gelados, ser-lhes-ia servido vinagre, com qualidade garantida pelos órgãos de inspeção, jamais se descuidando do respeito aos padrões legais. Essa “iguaria” poderia gerar a debandada de muitos deles, à procura de outras plagas, ainda habituadas a servir mel aos “ilustres visitantes”. Desse modo, poucos restariam. Sem ambiente e sem turma, provavelmente sairiam de fininho... Aceitar a condição de estranhos no ninho é complicado. Tudo é uma questão cultural! E a cultura não é mensurada pela expressão dos seus números? Regra que se aplica também às atividades à margem da lei.
 
A verdade é que, quando a anormalidade e a normalidade passeiam de mãos dadas, o sistema torna-se eficiente e faz a coisa progredir, ganhando dinâmica própria.
 
Tão logo as sugestões foram tornadas públicas, proprietários de restaurantes, lanchonetes e bares resolveram botar a sua colher, solicitando a convocação de reunião extraordinária da Associação Comercial e Industrial para apresentarem um documento do setor como contribuição “espontânea” e alternativa às soluções apresentadas, com o seguinte arranjo:
 
“Aplicada a fórmula prescrita pelos setores de segurança, com resultados insatisfatórios, seria providencial buscar a solução numa medida muito simples, a ser extraída da alimentação: refeições fartas e sobremesa abundante. Glutões estão por aí a indicar como gastam o seu precioso tempo: comendo. Método compatível para resolver problemas dessa gravidade. Muito simples é a sua execução: os ‘cidadãos problemáticos’, saciados até não poderem mais, gastariam a outra parte do seu tempo dormindo, e assim a cidade repousaria o sono dos justos e tranquilos, sem ser molestada... Tudo se resolveria pelo método apropriado. A simplicidade é a melhor logística para situações complicadas como essa”. * (2)
 
É devido um ajuste nessa engrenagem, agora por conta do próprio autor da narrativa. Com muita comida, a obesidade seria iminente. Ora, com diabetes, colesterol e triglicérides, as horas desses “cidadãos” seriam preenchidas nas farmácias (medindo a pressão arterial), agendando consultas nas clínicas médicas, inscrevendo-se nas academias de ginástica. Pronto, a cidade estaria livre da opressão. Inversão do problema... O que era de ordem pública passaria a ser de ordem individual!
 
Os pontos de vista digladiam-se abertamente. Cada um com a sua reserva de certeza...
 
Discussão digna de merecer questionamentos filosóficos, pois, nas esferas da vida cujo crepúsculo é determinado por vencedores e perdedores, os papéis dessa escala podem inverter-se com o tempo, em vista de a sua fluência não assegurar direito adquirido a nenhuma dessas espécies...
 
Isso tudo é muito complicado, é preciso considerar. Os vencedores não estão habituados a admitir esse tipo de agenda em seu raciocínio. Compreensão dificultada a esses atores. A cena rouba todo o tempo e o espaço. Não disponibiliza nem mesmo alguns segundos, de modo a ensejar ao cidadão uma devida reflexão a respeito do seu sucesso... A glória anestesia, entorpece. Dois elementos absolutamente antagônicos: a glória e a reflexão... Até porque a existência desta tiraria o brilho daquela.
 
Nessa altura dos acontecimentos, a apreensão vigorante em São Lucas das Missões cedia espaço para a nova ordem psicológica que se instalava.
 
A divulgação do conteúdo do laudo contribuiu para que o temor habitual fosse abrandado, já que, diagnosticada a doença, seria possível enxergar a claridade da luz.. O assunto agora pertencia à jurisdição da terapêutica.
 
O ambiente agregava um respeitável otimismo, facilitando os dispositivos de aceitação das medidas em andamento. A esperança transmudava-se em capital seguro...
 
A inquietude desceu, degrau a degrau, do seu edifício e providenciou as escadas para a colheita dos frutos sazonais...
 
Vejam se o autor tem razão ou não. Descortinado esse clima, agora com as vestimentas apropriadas, firmou-se a convicção de que a criação de uma Guarda Municipal, mesmo desarmada, e ainda sem o devido preparo e treinamento, resolveria os problemas, segregando os marginais e protegendo a vida e o patrimônio de todos. O sentimento dominante de medo começava a arrefecer-se com a “consistência” da proposta.
É necessário percorrer os caminhos do imponderável. Guiar o relato pelos seus contornos e nuances, até como contribuição da ficção aos cidadãos de São Lucas das Missões.
 
Situação riscada por psicologia complicada, porque a serviço da acumulação irregular, com a arquitetura da cena ditada pelo grau de degradação espiritual do agente. Cores desconhecidas, verdadeira incógnita que revela a sua face somente durante a operação. Reinado do sobressalto. Luta complicada e desigual! É sabido que o perigo existe e está rondando o ambiente, pronto para exercitar-se a qualquer momento. Entretanto, a agenda é conhecida por apenas uma das partes. A verdade é que o imponderável desequilibra qualquer disputa em favor de quem controla o tempo e a hora.
 
Do lado dos ciganos, é oportuno dizer que trabalhar num ambiente assim distribuído ainda era menos doloroso do que enfrentar a sobrecarga do preconceito acumulado pelo cartel do tempo. Percorriam o mundo e os seus arrabaldes carregando nos ombros juízos formados à margem da verdade.
 
Assim, guiados por sua ontologia, que contemplava esse espírito de aventura, os ciganos amaciaram o seu medo e o seu temor, dispondo-se a enfrentar as dificuldades. Razões do seu ofício.
 
Conhecer a essência dessa gente facilita a compreensão dos desdobramentos posteriores. Assunto apropriado à Dra. Livanilde Aranha, professora de História dos Povos do Oriente e Minorias Étnicas, que gentilmente acedeu ao convite da narrativa e expendeu os seguintes comentários, a título elucidativo, enriquecendo este trabalho:
 
“Os ciganos vivem a propagar os elementos integrantes da sua cultura. É uma existência romântica. A sua vida é temperada pelas tradições, colhidas e mantidas ao longo de imemoráveis tempos. Espertalhões, metidos a conhecer a sua trajetória, propagam informações inverídicas sobre eles, desfilando uma amadurecida ignorância, fisgando ouvidos desatentos e desfibrando a verdade sem nenhum pudor, pois, os ciganos, ao contrário do que esses caras alardeiam, não têm nenhum vínculo com atividades proibidas ou ilícitas. São exímios dançarinos, amam as cores fortes, tanto quanto os indianos, acreditam na reencarnação e num Deus comandando o universo, produzem os seus objetos e utensílios artesanalmente, têm como atividade econômica principal a quiromancia (a leitura das linhas das mãos da sua clientela), têm o seu próprio poder judiciário, não aceitam trabalhar para terceiros, e assim encaminham a sua existência num mundo permeado de conflito e de contradições. * (3)
 
“O seu lema é: 'O céu é meu teto, a terra a minha pátria e a liberdade a minha religião'.
 
Inexplicável, mas não estão na lista de preferência das ONGs e dos especialistas em solidariedade (e alguns até com doutorado nessa área...). Enquanto minorias de outras naturezas e origens são beneficiárias de uma receptiva e ordenada acolhida, recheando o seu trabalho com dinheiro consignado em orçamentos públicos, os ciganos ainda não caíram na mira do olho do 'politicamente correto', pelo que se sabe, e, provavelmente, jamais carregaram em seu bolso nenhum quinhão dessas verbas. Assunto de prodigalidade mal distribuída. Tudo questão do grau de combustão. Ou de decibéis insuficientes, quem sabe?
 
“Resultam em presa fácil das injustiças que são cometidas pelo mundo afora, e que a truculência brinda com os seus despejos de força, porque não têm como exibir escudos protetores”.
 
O autor agradece os comentários críticos expendidos pela Dra. Livanilde Aranha, registrando a sua notável contribuição, não obstante ter avançado demasiadamente as fronteiras demarcatórias...
 
Acerca desse instituto da solidariedade, é preciso reforçar o tema e tratá-lo num capitulo especial, o que será feito em seguida.
 
Dourar a pílula pode acalmar ouvidos macios e serenos, mas os impede de conhecer a verdade. Então vamos percorrer os entornos de São Lucas das Missões. É absolutamente necessário conhecer todas as suas entranhas, não apenas as amostras e exposições... Tarefa facilitada pelo transporte público. O cara é apanhado com a mão no jarro desfalcando as contribuições da sociedade, rapidinho aparece um representante dessa turma de “especialistas em solidariedade” e registra: “Está sendo vítima de um complô, no final será demonstrada a sua inocência”. Tudo bem, condenar antes do trânsito em julgado, não! Mas já, de início, sentenciar a sua inocência num terreno tão pantanoso, em que emergem tantas evidências contrárias, é trabalho de maquiagem, com finalidade preservacionista... O meio ambiente salvando o desfecho do parágrafo.
 
E ainda mais grave é o comportamento da outra banda da confraria. O cara mata um inocente fria e covardemente para subtrair-lhe os pertences, e lá vem o pacato cidadão: “é problema social!”, prolatando a sentença de absolvição do desmiolado e gerando uma dificuldade penal da seguinte monta: como instalar a Sessão do Tribunal do Júri e acomodar a burguesia toda no banco dos réus?
 
Assim, não há sociedade ou organização social que resista! Nem mesmo da que estamos tratando: a de São Lucas das Missões!
 
A oportunidade e a densidade ensejam a seguinte elucubração: se esse grupo étnico houvesse surgido no período de Mao Tsé-Tung seria razoável dizer que a sua origem é descolada ou destacada da antológica frase do líder chinês: “para fazer uma grande caminhada é preciso dar o primeiro passo”.
 
E, assim, orientados por ela e nela inspirados, os ciganos teriam iniciado a sua infindável marcha por esse conturbado mundo, superando largamente os dez mil quilômetros que Mao empreendeu com os seus correligionários e camaradas de armas.
 
Tudo poderia ser atribuído a um erro na interpretação da mensagem, uma vez que o líder estava orientando o seu povo a aderir à sua causa e não incitando os ciganos a percorrer o mundo e as suas divisas.
 
Os ganchos são grandes amigos dos homens e, “a fortiori”, dos escritores. Utilizar-se deles para divagar, limpa os céus das nuvens carregadas, não é mesmo?
 
Esses são apenas registros pincelados não por vernizes ideológicos, mas pela parafernália da criação que orienta esta obra literária. Se é que assim já podemos chamá-la, eis que ainda está em concepção e não passou pelo crivo e julgamento do leitor para adquirir esse status.
Desse modo, e cumprindo o ritual da sua tradição, os ciganos vieram parar na nossa cidade, empurrados pelos seus três mil anos de história, que, provavelmente, tiveram origem na Índia, esparramando-se pelo mundo, até que seja cumprida a sina de retorno às estrelas, donde provieram, segundo a sua crença.
 
Traziam apetrechos e mochilas que despertavam curiosidades e preocupação de muitos na busca de semelhanças com alguma tendência da moda, que pudessem copiar, como se fosse apropriado extrair isso dos ciganos... Aliás, os olhares dos transeuntes não estavam muito preocupados com a trajetória étnica e religiosa dessa gente (falando francamente, estavam se lixando para isso). O que lhes despertava a atenção era a possibilidade de testarem como andaria o seu futuro, pois o passado já era de pleno conhecimento (alterado, às vezes pela conveniência), o presente, uma cruz para carregar para muitos ou, então, para poucos, um paraíso já conquistado na terra.
 
Em resumo: manutenção da vida boa ou possibilidade de conquistá-la. Verdadeiramente, esta é a base de formação do espectro político ideológico chamado esquerda e direita.
 
O autor prestigia essa tese como a mais importante na formação desses dois polos, desconsiderando a ordem apresentada pelos historiadores da Revolução Francesa: jacobinos à esquerda; e girondinos à direita; nas cadeiras da assembleia.
 
 
Fato inadmissível para alguns, que vão estocar celeremente: revisionista!
 
Paciência. O que fazer diante do fanatismo? Absolutamente nada! Muito menos dar-lhe trela para organizar a plasticidade do palco e da ribalta.
 
Margeando essas reflexões, os ciganos buscaram acomodar-se num terreno baldio nas entranhas dos arredores. Conhecido o nome e o endereço do seu proprietário, Cipriano Justino, as negociações foram iniciadas. Desde cedo, foi descortinado um terreno pantanoso. Ambição e ganância poderiam por tudo a perder. André, o chefe do grupo, obrigou-se a percorrer compartimentos escorregadios. O desfecho indicaria o sucesso da tolerância ou a desistência. Mas, fazer o quê? Nem sempre as leis de livre mercado regem as situações, ainda mais quando a necessidade e a premência entram nessa composição...
 
Duas medidas diferenciadas. André buscava a acomodação. Cipriano Justino, a satisfação monetária prenhe da sua ambição. A oportunidade ensejava o tiro certeiro, pois nem sempre haveria ciganos dispostos a desvendar a sorte dos seus conterrâneos citadinos. Com essa mira em mente, o locador adicionou ao aluguel mais dez por cento pelo fato de exercer a administração direta do contrato de locação, dispensando os trabalhos de imobiliárias. Igual percentagem foi acrescentada sobre os serviços da quiromancia. Mais dez por cento, sob o argumento de que era pioneiro na cidade, e que o progresso ali verificado muito lhe devia, tendo dado, também, considerável contribuição ao crescimento populacional... A corda ia esticando-se aos limites da sua extensão.
 
Sabe-se lá o que esse cara quis dizer com essa história de “crescimento populacional”, pois dos pretensiosos pode-se esperar tudo, até mesmo o que o leitor pode estar deduzindo, ainda mais pelas dúvidas das reticências pespegadas.
 
André rechaçou essa política de dez por cento. ─ Assim não há acerto. Os aluguéis já estão no limite. É pegar ou largar ─. Fala firme, expressão da sua convicção, própria de um verdadeiro líder de grupo, posição que havia conquistado pela notória inteligência, resultado dos atributos políticos e culturais do grupo. Cargo vitalício perfilhado pela escolha. Nesse entorno, a hereditariedade, coisa das desbotadas monarquias, e os ensinamentos da cartilha do astuto Nicolau Maquiavel não tinham aceitação. O que desequilibrava a disputa era a notória sabedoria, e ele era, tranquilamente, o mais sábio do grupo. Intuição cultural dos seus pares, nada a ver, porém, com os dispositivos de Platão, que pretendia mandar para o topo da pirâmide os mais sábios e preparados, até porque não eram dados a percorrer as trilhas de nenhuma filosofia, pois já tinham a sua, que era suficiente.
 
Resignado, Cipriano Justino abdicou da matemática dos dez por cento, mantendo apenas uma das taxas, a que se relacionava com a sua importância diante dos fatos históricos, pois, segundo suas alegações, estava entrando na composição mais como um reconhecimento pelo seu desempenho do que pelo valor monetário em si.
 
A ganância e a cobiça, entidades governadas pelo excesso, têm a sua silhueta projetada pela dúvida e pelo temor. Autonomia de vôo reduzida. André tinha pleno conhecimento desses encaminhamentos da alma. E já com os créditos da paciência por findarem-se, encurtou os espaços: “Não quero mais seu imóvel e pronto.”
 
Ação rápida e apaziguadora entrou em vigor. Toda a sorte de gente, mexeriqueiros, correntes existencialistas (esta expressão tem o significado de destacar as pessoas interessadas em conhecer a sorte da sua existência), curiosos em geral, todos indistintamente assumiram a postura do “deixa disso”, jogando água nas labaredas que se haviam formado e preparando o terreno da acomodação. Um deles assim cravou: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Aristóteles empreendendo viagem no tempo e entregando a encomenda nos braços do nosso personagem: a virtude reside no meio, afastada dos extremos.
 
A rede de interesses estava formada. Os dispositivos eram variados. Ganância, sobrevivência, curiosidade, esperança, lucros a serem auferidos com a leitura das linhas das mãos, etc. E uma rede de interesses assim compacta equivale a uma muralha indevassável, dispensando o ofício da diplomacia para se chegar ao entendimento, pois o consenso é resultado do esforço da soma das partes, sem necessidade de apoio logístico de terceiros.
 
André notou que ia se formando o clima para colher bons resultados. E do outro lado do balcão, aliviado da frieza do transe, o Sr. Cipriano Justino passou a alisar os interesses do representante dos ciganos, com o argumento de que forneceria água e energia gratuitamente, sem nenhum ônus para os locatários, coisa que não era de pequena monta, já que era público e notório o apetite fiscal dos governantes com relação à cobrança desses serviços, agora justificado pelo nobre interesse em equilibrar as contas fiscais...
 
Desfeito o clima de beligerância, dois mexeriqueiros de ofício, em lídimo exercício das suas inclinações, Narciso e Florisvaldo, adubariam o terreno com suas informações, solicitando audiência com André, no frescor da tarde, em prejuízo do flanar vespertino...
 
Vejam como a coisa ganhava volume. Intriga, agora, ganhava o status de “audiência”.
 
“Olha André...(desse modo iniciou Florisvaldo) , essa pretensão do Cipriano Justino em incluir royalties na composição do valor do aluguel, pelos motivos alegados, não encontra respaldo na realidade. O seu relato acerca da sua contribuição para o crescimento populacional nada tem a ver com o seu desempenho. Soldado do desencanto e da desilusão. Nessas incursões, a sua contabilidade só registra números negativos, fornecendo, com frequência, atestado de inoperância e inaptidão. Isso era voz corrente nas áreas ‘premiadas’ por sua performance ...”
 
Desejo reprimido: universo recalcado em expansão. Ajuste de contas pela delação... Diretriz do autor.
 
 
E, tomado pelo entusiasmo, prosseguiu o referido personagem:
 
”Em relação aos seus sentimentos, é de registrar que é homem de alma dura. Verdugo de seus inquilinos. A caridade, muito cedo, coisa dos tempos juvenis, recebeu a carta de exílio da sua alma. Quando intentada, causava-lhe sensação de perda irreparável em seus pertences. Jamais a sua poupança irrigou investimentos produtivos na cidade. Os seus haveres só buscam abrigo seguro. Passam ao largo de qualquer risco. O dia que nos deixar não estará credenciado a encher o peito e dizer: valeu a pena! Certamente, haverá um gemido de dor em seus últimos suspiros em não poder levar para a eternidade as suas posses e bens. Essa é a luz da verdade!”.
 
Julgamento, por conta dos leitores.
 
As discussões e a dureza de André nas negociações firmariam jurisprudência a ser incorporada aos usos e costumes do grupo. Terapêutica apropriada aos vilões. Contribuição dos ciganos para dificultar a atuação dessa casta existencial nos ambientes sociais. Receita condizente para blindar a bondade dos exageros e transbordamentos “desses caras”.
 
 
 
Alguém teria todo o direito em argumentar: mas que expressão mais chula essa que foi cravada com aspas. Merecem outro tratamento mais qualificado? Cada um colhe o que planta e pronto. O eufemismo não é pau pra toda obra, é governado também por limites!
 
Vilão que se preza recolhe-se na dificuldade, mas não se livra do apetite... Recuo é apenas diversidade tática! A calmaria do ambiente instigou o Senhor Cipriano Justino a reacender a sua comichão, lançando a hipótese de uma alteração contratual, como balão de ensaio entre os outros membros do grupo para que a notícia chegasse até André e fosse medida a reação deste. O pagamento das taxas pela instalação da energia e pela ligação da água não poderia mais ser cumprido por ele, em face do impedimento de tal iniciativa, por disposição legal expressa.
 
O estado de ânimo de André acirrou-se, exigindo providências à altura. Subterfúgios e pretextos do locador não receberiam, de ora em diante, os afagos da contemporização e sofreriam o poder de convencimento da correspondente ação judicial reparadora. Não se descuidaria de exigir que o matagal em franca proliferação no terreno, objeto do contrato, fosse domesticado pelas podas necessárias. As calçadas, por exemplo, estavam em petição de miséria, aptas a ser incluídas nesse texto corretivo. E ainda mais: se alguma chantagem extra sobreviesse, entregaria o imóvel por descumprimentos das cláusulas, com a exigência compatível de lucros cessantes. Leitura viabilizada por sua fala e gestos.
 
Postura firme, que obrigou Cipriano a recuar, alegando que eram boatos infundados, que ele mesmo passou a condenar como coisa da concorrência, concordando em sobrepor nova assinatura na cláusula de isenção.
 
Desanuviados os ares, se é que se pode falar nesses termos, quando os ingredientes são regidos pela imoderação e por apetite insaciável, os nossos amigos da sorte só não foram depenados aos limites da exaustão, pela inteligente e eficaz atuação de André.
 
As barracas foram armadas e acomodados os seus pertences. A claridade apresentando-se buliçosamente ou o início de uma variedade de novos problemas?
 
No dia seguinte, sentindo-se aliviados e livres dos aborrecimentos em trânsito, eis que recebem a visita de dois fiscais da Prefeitura, exigindo-lhes a apresentação do alvará de licença para exercício da sua profissão (registre-se que nem mesmo tinham iniciado as suas atividades). Foram apanhados de surpresa, e, embora já tivessem recebido muitos clientes reclamando da exorbitância dos impostos e taxas em outras plagas, ao que nunca deram muita importância, imaginando que era gente chorando de barriga cheia, agora estavam sentindo na própria pele a fisgada da agulha fiscal.
 
Diante da negativa de André, os fiscais, já de início, destacaram uma rigorosa multa pelo exercício da profissão sem os devidos deveres com a fazenda municipal.
 
Foram intimados a promover a quitação das taxas num prazo de vinte e quatro horas. Ainda mais porque, segundo o relato, a indisposição do Prefeito contra os integrantes do grupo era facilmente perceptível, notadamente convencido de que a boa sorte do seu povo não requeria nenhuma avaliação suplementar, em vista de poder ser medida pelo semblante das pessoas, e que, nessa composição de felicidade, o ingrediente que mais pesava era o desempenho do alcaide.
Mas, por apego à verdade, é preciso dizer que esse diagnóstico não estava respaldado na realidade, porém o que fazer diante do ufanismo, forma devidamente provida da autossuficiência, com a sua agenda organizada, arbitrariamente, pelo culto, admiração e reverência? Componentes absolutamente impermeáveis a incursões críticas...
 
André deparou-se com um “outdoor”, postado no terreno fronteiriço, com inserção da seguinte expressão: “stop and go”. Indicativo de pausa. A resignação pôs-se a caminho. Determinou aos seus subordinados que efetivassem o resgate da taxa exigida. A desigualdade mostrando a sua cara. Não seria ele a raspar o seu ruge e batom, pois desconhecia, por completo, a alquimia dos bufões e fanfarrões. Jamais foi dado a encurtar distância por esse critério.
 
Na manhã seguinte, as mulheres instalaram-se na praça da catedral, iniciando as suas atividades.
 
O dia ocorreu sem novidades. As pessoas chegavam, o seu destino era traçado, deixavam o “dízimo” e a marcha prosseguia. A angústia, aliviada ou agravada. Cada caso era um caso.
 
No âmbito do legislativo municipal, chegou a notícia da presença dos ciganos. Veio em boa hora, segundo o nobre entendimento dos edis. Leitura oposta à do prefeito. A campanha eleitoral estava em vias de se iniciar. Embora todos dessem como favas contadas a reeleição, no íntimo eram perseguidos por uma dúvida atroz. Assim o novelo iniciava a sua viagem.
 
Discutiram interessadamente a questão, cujo traçado final se apresentou da seguinte forma: os cabos eleitorais precisavam ser animados por um alento a ser projetado pelos dias futuros e relacionados com as suas atividades legislativas (desta vez, seria um pacote a ser amarrado pela leitura das suas mãos). Cabo eleitoral feliz é produtividade na certeza. Resultado: a urna transbordante de votos. Reeleição garantida, tranquilamente! Todos estariam a salvo da inconstância das ideias do eleitor, sujeitas a ser influenciadas pelos caminhos sugeridos por Raul Seixas: a metamorfose ambulante. Afinal de contas o voto proporcional dava asas aos eleitores. E enquanto não viesse a segurança das listas fechadas, melhor seria prevenir-se...
 
Assim, os nobres edis, liderados pelo Presidente da Câmara, Mateus dos Prazeres, ensaiaram a solução. Mateus tomou à frente da “engenharia”: “falamos com o chefe do bando, damos-lhe uma boa comissão, com o compromisso de encaminharmos os nossos cabos eleitorais, um a um, em dias diferentes, à Praça da Catedral, de modo a ser descrito, pela leitura da sorte, o destino promissor que os está aguardando”.
 
Deliberação sedimentada pela unanimidade.
 
 
Com essas premências na agenda, Mateus dos Prazeres, sem revelar o conteúdo das suas intenções, determinou ao seu oficial de gabinete, Amarildo da Silva, que procurasse o chefe dos ciganos em sua tenda, solicitando-lhe os seus bons ofícios em comparecer ao gabinete da presidência, neste mesmo dia, no final do expediente, para ser mais preciso, às l7:30 h, sem falta. Rigor absoluto nas exigências.
 
Seria o caso de dizer: nem mesmo Napoleão Bonaparte, comandante de tantas tropas e vencedor de tantas batalhas, trabalhava com requisições tão apressadas.
 
Ordem dada, ordem cumprida. Às 10 h e 30 min, lá estava no acampamento dos ciganos, o agente de Mateus dos Prazeres. A requisição era assunto impostergável. Solicitou ao ajudante de ordens de André que o introduzisse em seus aposentos. Intento que se deparou com a barricada das normas da educação: disponibilizando-se-lhe uma cadeira de aguardo. O ajudante, por sua vez, dirigiu-se até o chefe e relatou a presença do irrequieto mensageiro do Presidente. André ouviu em silêncio e pediu que o interessado aguardasse alguns minutos, pois ainda estava cuidando da higiene e da arrumação que as manhãs exigem de cada um de nós. O comunicado foi feito.
 
O desagrado de Amarildo foi imediato, pondo-se a caminhar em direção à tenda de André e nela adentrou abruptamente. Surpreso, André olhou para o seu interlocutor e conclui consigo mesmo: se o subordinado age desse modo, o que pensar do seu chefe então?
 
No horário vespertino, conforme combinado, lá estava André na sala de Mateus dos Prazeres. Laminados e móveis em MDF (denunciando que o desmatamento tinha concluído o seu trabalho com muito rigor), pinturas, gravuras. Apropriação do ambiente pelos tempos contemporâneos... Desterro da impessoalidade na criação, da perspectiva e da proporção das formas. A obra de arte abdicando do culto para cultuar a si mesma. Que juízo Mateus dos Prazeres fazia desse cenário? Seria o caso de perguntar, afinal de contas deveria conhecer a realidade que o circundava!
 
Quebrado o gelo inicial, com a oferta de cafezinho, o Presidente fez um relato das durezas do seu ofício. Em seguida, entrou no ponto que mais interessava. Descreveu sinteticamente as suas intenções, dizendo que ele e outros companheiros estavam empenhados em ver realizada essa logística eleitoral. Desprezou o contraditório e a dualística contratual, fixando arbitrariamente o valor dos serviços, produto da generosidade dele e de seus pares, segundo seus argumentos. Acrescentando que, se bem executado o trabalho, haveria uma régia gratificação suplementar.
 
Encerrou a sua fala indagando: ̶ e de daí, posso contar com você?
 
A situação requeria cautela. André tinha plena consciência de que as palavras poderiam ser aliadas poderosas, se pronunciadas com sagacidade. Mas, também, poderiam transformar-se num inimigo declarado do seu formulante (o computador grifou ‘formulante’. Será que estamos diante de um neologismo da escrita?).
 
Diante desse quadro, iniciou a viagem pisando em cascas de ovos:
 
─ Meu Caro Presidente, não estou habilitado a lhe oferecer a resposta imediatamente, pois questões dessa “envergadura e responsabilidade” passam pelo crivo de Lídia Sortilégio, a matriarca do grupo, que empreendeu viagem. Peço um prazo de três dias para trazer-lhe a resposta.
 
 
 
Mateus não gostou, mas controlou-se e concordou.
 
Dia seguinte, os trabalhos das ciganas seguiam a marcha. Logo cedo, dois assessores de vereadores estiveram na praça, guiados pela autonomia da sua curiosidade, sem ainda terem contatado com Mateus dos Prazeres. Givanildo Azevedo, um deles, e Rafael Constâncio, o outro. Ambos valeram-se de trabalho distinto. Lucinda e Tipuana, ciganas compenetradas em seu ofício.
 
A leitura das mãos de Givanildo revelou um cenário absolutamente surpreendente: a figura de Antônio Conselheiro, esbravejante, o Vaza-Barris, a movimentação dos Coronéis Moreira César e Pedro Tamarindo, a luta encarniçada de Canudos. As imagens emergiam de uma fumaça densa. Nos momentos seguintes, desapareceram, e restou apenas a de Antônio Conselheiro. Agora, em tom pausado, era possível ouvir a sua pregação, ou melhor, a sua peroração: “Diziam que eu representava o atraso, uma estaca nos sertões para impedir a implantação da República emergente, em manifesta solidariedade à Monarquia. Justificativa para o uso desproporcional da força. Restabeleça-se a verdade. Nada disso! Nem República, nem Monarquia, apenas devotos trabalhando nas entranhas do sertão, sob a coordenação daquele que vocês qualificam como 'Messias'. Esses seriam os sinais civilizatórios dos novos tempos? O sacrifício meu e de meus homens apaziguou os 'espíritos libertários'? Qual percurso foi palmilhado pela trajetória pós-Canudos? E, hoje, como andam as coisas na terra de Pindorama? Livre dos 'embaraços' de Canudos, a República que chão está pisando? Terreno firme ou movediço?”.
 
Givanildo deixou a consulta horrorizado e prestes a relatar o fato ao Presidente.
 
De outro lado, Rafael Constâncio era só ouvidos para a imaginada colheita em vias de realização, cujos relatos se dariam pela voz da cigana Tipuana.
 
Aqui como lá, a sorte escandalizou. Disparo de Tipuana, com o olhar fixo nas linhas da mão do consulente: “São Lucas das Missões submete-se a um novo calendário. Agenda traçada nas ruas pelos sobressaltos. O seu futuro organiza-se pelo presente. A inutilidade do trabalho dos ciganos é estarrecedora, pois não há destino a ser lido. Há um nivelamento. A sorte que atinge um atinge todos!”
 
 
 
Constâncio, não dando o braço a torcer, mesmo diante da turbulência do desagrado íntimo, aparentou indiferença à notícia, nada regateando mais das artes da quiromancia. Já que os “ativos” estavam descartados, teria de cuidar do passivo, redobrando os cuidados com a vigilância...
 
Nas horas seguintes, os assessores mencionados, descapitalizados pelas predições, tal qual se deu pela leitura de suas mãos, em confidência nos recintos legislativos, relataram um ao outro o descalabro da consulta. Lucinda e Tipuana prescreveram dosagem amarga, obrigando-os a concordar com a gravidade da situação, pois até Antônio Conselheiro, com desenvoltura e ares sentenciosos, estava pegando carona naquele ambiente. Ambos deliberaram por relatar o fato ao Presidente, imediatamente.
 
Mateus, de antena ligada nas informações em trânsito, percebeu que a situação exigia a sinergia salvadora. Ofício do bisturi, e não dos analgésicos. As horas transmudavam-se em capital franqueado pelo tempo. A peça chave da logística requeria a presença do alcaide, um diferencial de peso a ordenar a estratégia, considerando que a sua paciência com os visitantes estreitava-se com o passar dos dias. Tiravam o brilho das obras em execução, desviando a atenção. Agora com uma notícia dessas... Era o mesmo que dar milho pra bode! Ou, então, juntarem-se, no mesmo banquete, a fome pantagruélica e a mesa farta. A audiência foi marcada sem delongas.
 
Ações rápidas e providenciais haveriam de ser intentadas, antes que fosse tarde demais, porque, se os boatos se alastrassem, seria o caos: tropeços irrecuperáveis nas ordens social e econômica, destruindo o status quo da ordem política, porque esta, por exigência da sua sobrevivência, não poderia prescindir daquelas. Diagnóstico afiançado pelo grupo de interesses convergentes...
 
Oposição e situação estavam unidas, de fazer inveja a Romeu e Julieta. Divergências eram creditadas ao entulho do passado. A unanimidade revestiu-se da energia requerida pelos grandes obstáculos.
 
Os vereadores, ali presentes, liderados por seu Presidente, solicitaram ao prefeito duas providências imediatas: a cassação do alvará de licença dos ciganos e uma refrega passada publicamente, amaldiçoando as trapaças da quiromancia e a promiscuidade espiritual desses malfeitores, exortando-os a deixar a cidade, sob pena de ser usada uma força tarefa, investida de poderes suficientes para promover a equalização do ambiente...
 
Cabe ao leitor imaginar os desdobramentos dessa reunião. Por certo, a missão não envolve a decifração de charadas e nem a armação de quebra-cabeças, bastando refletir sobre a validade ou não do ditado popular: “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco”.
 
Ou, então, concordar com o enfraquecimento da vigência dessa lei, resultado do vozerio dos ciganos, chamando a atenção da solidariedade e iniciando um novo ciclo em São Lucas das Missões. Rigorosamente se poderia dizer: escrúpulos minimalistas com a democracia e com uma das suas ramificações, o direito de ir e vir...
 
Duas hipóteses. Uma, apenas, com possibilidade de palmilhar as trilhas da História.
 
(1) – As aspas indicam que o personagem fala em toda a extensão do parágrafo e no parágrafo seguinte, aí se dando o seu fechamento;
 
(2) – As aspas indicam que o personagem fala em toda a extensão do parágrafo, situação que vai se repetir durante o texto;
 
(3) – as aspas indicam que o personagem fala em toda a extensão do parágrafo, bem como nos seguintes, até a rodada de fechamento.
 
 
 
 
 
 
 

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